Brasília - Ruy Fabiano
O presidente Fernando Henrique já está inteiramente plugado no processo sucessório. Não que só pense naquilo, mas aquilo, sem dúvida, está presente em tudo o que pensa. Basta ler os termos de sua entrevista à edição desta semana da revista IstoÉ.
De todos os pré-candidatos, o presidente parece temer apenas um: Itamar Franco - e não exatamente em virtude de seu pontencial eleitoral. Teme os efeitos predadores do discurso de Itamar sobre sua candidatura. Itamar, em resumo, não teria votos para eleger-se, mas teria munição suficiente para impedir ou dificultar a eleição de FHC.
O próprio presidente admite, a respeito de Itamar: Será uma candidatura, digamos, incômoda, pelas relações pessoais que nós temos. O problema não são propriamente as relações pessoais. São os ressentimentos decorrentes do processo de isolamento a que Itamar se sente submetido dentro do atual governo. O ex-presidente não absorve a idéia da reeleição, que considera quebra de compromisso.
O tema da reeleição chegou a ser examinado dentro do governo Itamar na oportunidade em que o Congresso Revisor preparava-se para votar emenda nesse sentido. Itamar opôs-se, assim como auxiliares mais próximos. Fernando Henrique, segundo ele, não se manifestou em sentido contrário. O Congresso Revisor derrubou a proposta.
Há dias, o senador Pedro Simon (PMDB-RS), que foi líder de Itamar no Senado, lembrou da tribuna essa passagem. Não foi ela, porém a mais expressiva. Há outra, que Itamar não conta (ainda) de público, mas que ex-auxiliares seus o fazem. Quando começou a pensar em sua sucessão, Itamar inclinava-se pelo nome de seu ministro da Previdência, Antonio Britto, hoje governador do Rio Grande do Sul.
Britto tornara-se popular pagando diferença salarial aos aposentados, negada pelo governo Collor. Itamar sabia que, com o sucesso do Plano Real, não teria dificuldades em fazer o sucessor. Bastava indicá-lo. Britto, porém, não aceitou o convite. Julgou-se sem experiência e preferiu disputar o governo do Rio Grande do Sul.
Foi quando, segundo relata esse auxiliar de Itamar, Fernando Henrique colocou seu nome em pauta, convencendo a Itamar de que teria viabilidade eleitoral. Fez mais, segundo a fonte: acenou com a possibilidade de ele e Itamar revezarem-se no poder por alguns mandatos. Esse parece ser o nervo exposto das relações entre os dois. A emenda da reeleição, para Itamar, equivale a uma quebra de compromisso, uma espécie de gota dágua num copo que, de há muito, desde a saída de Henrique Hargreaves do governo FHC, já estava cheio.
Itamar sente-se também caroneado com sua exclusão dos festejos do Plano Real, cuja paternidade reivindica. São assuntos menores, que passam ao largo das grandes discussões de fundo da política nacional. Mas geram constrangimentos e são um prato cheio para os adversários. Não é à toa que Lula quer algum tipo de aliança com Itamar. Fernando Henrique admite: Não falaria mal do governo dele (Itamar), pois era também o meu governo. Já para Itamar a recíproca não tem nada de verdadeira.





