Em recente artigo no ‘‘The Washington Post’’, o professor norte-americano Lawrence Harrison dá mais alguns tiros de misericórdia na ‘‘Teoria da dependência’’, de grande aceitação nos meios acadêmicos latino-americanos nas décadas de 70 e 80.
O presidente Fernando Henrique, um dos maiores teóricos da tal teoria, expressa no seu livro ‘‘Dependência e Desenvolvimento na América Latina’’, é invocado como exemplo de alguém que se reciclou a tempo. A teoria dizia que o atraso da América Latina estava diretamente vinculado a políticas imperialistas emanadas do Norte.
A partir dessa premissa, os Estados Unidos consolidam-se, na visão acadêmica, no papel de vilões da miséria continental, e o socialismo torna-se, na visão dos adeptos da teoria, a hipótese de libertação. A teoria já não tem muitos adeptos ilustres e o professor Harrison, que sempre a condenou, diz que a fonte do atraso latino-americano não é econômico ou político: é cultural.
A cultura ibérica, patrimonialista, que privilegia o indivíduo e a família em detrimento de um senso mais amplo de comunidade, seria a fonte do atraso. Não cultua valores como trabalho, educação, parcimônia, mérito, comunidade e ‘‘jogo limpo’’. A América Latina exprime a ética católica, medieval, enquanto os Estados Unidos exprimem a protestante, progressista. Dito assim, tem-se a impressão de que tais valores - ética, mérito, valorização do trabalho, noções de justiça e autoridade - foram sempre fielmente cultuados ao Norte e desprezados ao Sul, o que explicaria os desníveis de progresso e desenvolvimento.
Não é tão simples. Os Estados Unidos sempre utilizaram pesos e medidas diferentes quando se trata de aplicar valores às políticas interna e externa. Para ficar em exemplos mais recentes, basta ver procedimentos diametralmente opostos aplicados em relação a seus parceiros na Área de Livre Comércio das Américas (Alca).
Querem desde já que seus parceiros reduzam tarifas e barreiras alfandegárias, mas não hesitam em conservar as suas. Querem livre ingresso de seus produtos por aqui, mas não permitem que o mesmo ocorra lá. Não permitem sequer que a América do Sul possua um bloco econômico. As pressões para pôr fim ao Mercosul não são exatamente sutis. Não é só. Não hesitam em quebrar fundamentos universais do Direito legislando para fora de seus limites territoriais, com o objetivo único de estabelecer pressões políticas sobre governos que não apóiam.
É o caso da lei Helms-Burton, que estabelece retaliações comerciais aos que fizerem negócios com Cuba, país excluído de todas as iniciativas continentais (inclusive a Alca), por mero sentimento de vingança dos Estados Unidos contra Fidel Castro. Onde se enfiou, em tais procedimentos, a ética protestante? De que o atraso brasileiro é ‘‘made in Brazil’’, não há dúvida. Mas supor que o paradigma ético está no Norte é, digamos, um certo exagero.

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