Brasília - Ruy Fabiano
A discussão sucessória na oposição parte de premissa correta: só há chances de vitória contra Fernando Henrique se marchar com candidato único. Ninguém duvida disso - e o consenso termina aí. Lula (PT), Leonel Brizola (PDT) e Miguel Arraes (PSB), as três principais figuras oposicionistas, estão empenhados em articular essa candidatura única, com a menor margem de divergência já registrada entre eles.
O problema, porém, não está apenas entre eles. As respectivas bases estão longe desse consenso. O PT é, hoje, de longe, o principal partido da oposição. Como tal, dá as cartas. Nem Brizola, nem Arraes discutem mais isso. O detalhe é que, nas bases petistas, reina a divergência. Lula é sua principal figura, mas sua candidatura enfrenta considerável contestação interna.
Parcela ponderável do partido, sobretudo a ala mais à esquerda, acha que Lula está desgastado demais. De um lado, a condição de candidato duas vezes derrotado à presidência da República o coloca na situação que um dia atribuiu ironicamente a Paulo Maluf (que detém igual marca): a de candidato competente, aquele que compete, compete e jamais vence. Esse o desgaste menor. Afinal, François Mitterrand, antes de eleger-se duas vezes presidente da França, perdeu também duas eleições presidenciais.
O desgaste maior é outro: relaciona-se com as acusações de irregularidades, feitas por um militante do próprio PT, que poderiam torná-lo vulnerável num debate público. Lula, na campanha em que perdeu para Fernando Collor, mostrou-se frágil quando diante de acusações mais duras. A alternativa Tarso Genro, ex-prefeito de Porto Alegre, que desfruta de reputação de excelente administrador e bom formulador político, seduz boa parte da militância petista. Lula finge aceitá-la, sem maiores problemas, e até se dispõe a ser seu cabo eleitoral. Mas age em sentido contrário.
Tarso quer antecipação do debate interno em torno da sucessão, pois, na eventualidade de vir a ser o candidato do partido, precisa de tempo para fazer com que seu nome, restrito ao âmbito do Rio Grande do Sul, ganhe dimensão nacional. Lula quer essa discussão apenas em dezembro, o que, pela premência dos prazos, obrigaria a que o partido não tivesse alternativas senão escolhê-lo.
Uma coisa é certa: quem viu Lula participar quarta-feira passada de um painel de debates no Superior Tribunal de Justiça (STF), em Brasília, que discutia problemas e rumos do Poder Judiciário, não tem dúvida de que está em plena campanha. Seu discurso extrapolou o tema da palestra, em conteúdo e adrenalina, e transformou o austero auditório do STJ num palanque improvisado.
No mesmo dia, participou de jantar no restaurante da Câmara, organizado pelos partidos de esquerda. Voltou a falar como candidato. Discursou, chorou, desafiou. Não há sinais de que tenha desistido de seu papel de liderança máxima do PT, nem que esteja se convertendo ao papel de cabo eleitoral de ninguém.





