Brasília - Ruy Fabiano
O governo Fernando Henrique enfrenta seu momento de mais baixa taxa de popularidade. Não há propriamente crise de confiança, mas começam a ficar mais nítidas para o público as dificuldades e contradições que enfrenta o Plano Real. Os sintomas são econômicos, mas as causas fundamentais são políticas.
O governo não tem lastro no Congresso para empreender as reformas - e precisa delas para consolidar a estabilidade da moeda, seu grande capital político. A conquista do direito de tentar a reeleição gerou incômodo efeito colateral: precipitou o processo sucessório e tornou mais problemáticas as relações com o Congresso.
A reeleição não mexe apenas com o metabolismo político federal. Mexe sobretudo com o estadual. Cada parlamentar e governador, desde então, só pensa naquilo. Nada que comprometa a performance nas urnas tem passagem. Como pensar em quebrar a estabilidade do servidor, reduzir aposentadorias e privilégios corporativistas, mexer nas receitas de estados e municípios em pleno ambiente eleitoral? As reformas que estão no Congresso já foram substancialmente reduzidas em sua abrangência. Mesmo assim, continuam empacadas.
A mais recente derrota governista na Câmara, a preservação da estabilidade do servidor, foi o primeiro revés do novo líder do governo, Luís Eduardo Magalhães, em quem foram depositadas expectativas impossíveis de serem atendidas. Ele pode ser competente, mas não mágico. E para resolver o nó do sistema político brasileiro, sem fidelidade partidária, só convidando o David Copperfield para articulador político. A alternativa? A curto prazo, só está disponível a clássica do é dando que se recebe. Com certeza, o governo acabará recorrendo a ela. O Plano Real não pode fazer água.
As reformas, na dimensão necessária, ficam para o outro mandato, que, até aqui, apesar de todos os pesares, continua sendo visto como algo mais que garantido. A queda de popularidade do presidente e os receios em relação ao futuro do real preocupam, mas ainda não apavoram. O governo conta com alguns trunfos que guardou para desovar daqui por diante: medidas de impacto popular, como a nova política habitacional, a ser remetida ao Congresso. Conta sobretudo com a desarticulação oposicionista, que está longe de ter sido superada.
A reunião das principais lideranças adversárias - Lula, Miguel Arraes e Brizola - dificilmente produzirá ações conjuntas concretas. Na hora de escolher quem personificará o movimento, o conflito de personalidades impede um desfecho positivo. Tem sido assim desde o início da redemocratização do país. Fernando Henrique conta com isso.
Sabe que à direita e ao centro é ainda a única opção. Nomes como Paulo Maluf, José Sarney ou Itamar não merecem das classes dominantes e do capital externo a mesma confiabilidade. E a esquerda continua honrando o velho axioma: só se une na cadeia.





