Brasília - Ruy Fabiano
O processo sucessório estadual já começou a pipocar. A primeira vítima é o PMDB, um dos partidos de sustentação do governo no Congresso. Orestes Quércia, um dos muitos caciques do partido, é o fator de desestabilização da seção paulista do partido - a mais importante.
Quércia é candidato a governador de São Paulo em 1998. Adversário do governo Fernando Henrique - coube-lhe, na última convenção do PMDB, propor moção contrária à reeleição -, não se sente em condições de enfrentá-lo novamente na sucessão presidencial.
Desconfiômetro não lhe falta. Quércia sabe que vive situação análoga à de outra liderança paulista do passado, Adhemar de Barros. Nas duas tentativas que fez de se eleger presidente, Adhemar fracassou. Seu prestígio, forte em São Paulo, não conseguia extrapolar as fronteiras do estado. Lá, no entanto, nem mesmo os arranhões em sua reputação enfraqueciam sua liderança. Era um coronel do asfalto, que controlava com competência seu reduto, mantendo-o inabalável, até ser cassado pelo regime militar (por corrupção, não por subversão, claro).
Quércia, guardadas as diferenças de tempo e linguagem, é uma espécie de Adhemar de Barros reciclado. Possui muitos adversários, dentro e fora do estado, mas consegue manter seu reduto sob controle. Já foi mais influente dentro do PMDB, o que lhe permitiu disputar duas eleições de governador (ganhou uma) e a presidência da República na eleição passada. O PSDB surgiu da dissidência antiquercista - e está no poder, em São Paulo e no plano nacional.
A facção peemedebista que integra a base governista não é, obviamente, a de Quércia. Cercado por todos os lados, ele, no entanto, continua tendo considerável espaço na seção paulista. Seus advogados são ilustres - entre outros, Alberto Goldman, José Aristodemo Pinotti, Aloysio Nunes Ferreira, Luís Carlos Santos -, mas Quércia ainda é suficientemente forte para impor-se e dar as cartas.
Nenhum de seus adversários se sente forte o suficiente para impedir sua candidatura. Isso está produzindo um efeito que preocupa a direção nacional do partido: evasão de parlamentares. Pinotti, Aloysio Ferreira e Goldman devem ir para o PSDB. Luís Carlos Santos, ministro da Articulação Política, não se definiu ainda. Dizem que, na eventualidade de deixaqr o partido, sua opção seria o PFL.
Há ainda migrações previstas para o PPB de Maluf, em menor escala. Como não há sinais de adesão de peemedebistas a partidos de oposição - o PPB, embora às vezes não pareça, é governista -, a crise não ameaça a maioria de Fernando Henrique no Congresso, mas interfere na correlação de forças entre os partidos da base. O PMDB perde substância e, por extensão, prestígio e influência.





