A reação tardia - e puramente verbal - do PSDB ao papel hegemônico exercido pelo PFL na base governista não muda substancialmente nada. O predomínio pefelista decorre mais das fragilidades e ambiguidades de seu parceiro que dos méritos de suas lideranças.
Pode-se criticar o PFL por suas propostas, mas não se pode acusá-lo de não tê-las. O partido sabe o que quer - as reformas liberais do Estado - e isso torna mais simples liderá-lo e conduzi-lo. Quando seus líderes sentam-se para negociar, estabelecem claramente o que querem. São, como diz o presidente, profissionais da política.
O PSDB é bem diferente. O partido tem forte presença acadêmica, o que o induz a sustentar e cultivar controvérsias internas constantes. O debate interno, frequentemente, inibe a ação externa. O partido, desde a origem, espelhou-se em algumas de suas lideranças maiores - e Fernando Henrique Cardoso obviamente era uma delas.
Ocorre que o Fernando Henrique de então, aquele que marcou sua atuação na Constituinte por críticas ao chamado Centrão - aliança de forças conservadoras, formada por PFL, PDS e parte do PMDB, contrária às propostas das forças de esquerda e da social-democracia - já não existe. O exercício do poder empurrou-o gradualmente para a direita, da social-democracia para o neoliberalismo.
A questão social tornou-se secundária. O Fernando Henrique presidente passou a identificar-se não apenas com o estilo - direto e pragmático -, mas também com as causas do PFL. O academicismo tucano, que o ministro Sérgio Motta certa vez classificou de ‘‘masturbação sociológica’’, passou a enfadá-lo. O acadêmico Fernando Henrique, cultor do debate e do questionamento obsessivo, transmutou-se num presidente que, tal como Machado de Assis, confessa ter tédio à controvérsia.
O PSDB é um partido de idéias; o PFL, um partido de metas. Um nasceu do debate doutrinário; o outro, da estratégia calculada de ocupação do poder. O PDSB é fruto da ruptura dos progressistas do PMDB com a porção conservadora e fisiológica do partido.
Nasceu sustentando duas idéias-força: a adoção do parlamentarismo e a implantação da social-democracia. Nenhuma das duas, neste momento, está visível no horizonte. O PFL nasceu de uma ruptura do PDS, entre malufistas e não-malufistas, às vésperas da última eleição presidencial indireta, em 1984. Surgiu como Frente Liberal, abandonando o barco corroído do regime militar e embarcando na canoa novinha em folha do poder civil, via Tancredo Neves e José Sarney.
O pragmatismo, desde então, tem sido sua tônica e o mantém no centro do poder. O PSDB anuncia que convocará sua executiva nacional para formular programa e impô-lo ao presidente, em véspera de campanha eleitoral. O programa, em tais circunstâncias, tende a ser bem mais adjetivo que substantivo e, como tal, não resultará em nada. Apenas coreografia eleitoral. O PFL fará de conta que não manda e encenará humildes vênias a seu parceiro. Mas continuará como sempre mandando.

mockup