O ponto mais importante do duelo verbal da semana passada entre os senadores Pedro Simon (PMDB-RS) e Antonio Carlos Magalhães (PFL-BA) não foram os abundantes e apimentados adjetivos de parte a parte. O resumo da ópera é: o PFL está no poder. É quem governa e traça o rumo das políticas oficiais. PSDB e PMDB são meros figurantes.
Não se trata, como frisou Simon, de tecer juízos de valor sobre esse ou aquele personagem pefelista. Todos são muito competentes, sobretudo em matéria de poder. O que se trata é de examinar as razões que levaram o presidente da República a essa opção e se há meios de revertê-la. Neste momento, aparentemente, não há.
Se o PFL fosse o maior dos partidos de sustentação do governo, não seria difícil entender o porquê da opção. Mas não é. O PMDB, partido de Simon, tem um número bem maior de deputados federais, senadores, governadores e prefeitos. E o PSDB, por sua vez, é o partido ao qual o presidente da República é filiado. Mas é o PFL, que entrou na campanha eleitoral pela porta dos fundos e foi inicialmente tratado como uma espécie de patinho feio da aliança, que dá as cartas.
Não é tão difícil de entender. O PFL beneficia-se menos de seus méritos e mais dos deméritos de seus parceiros de aliança. É provavelmente hoje o partido mais homogêneo do país. Sabe ao menos o que quer. Sustenta a doutrina neoliberal, advoga a execução sumária do processo de reformas e deseja desregulamentar a economia e enxugar ao máximo a estrutura do Estado. Nem o PT, hoje, tem a mesma nitidez em relação a suas idéias programáticas. Já foi o partido mais homogêneo do país. Hoje é também um confuso aglomerado de facções.
O PSDB tem comportamento ambíguo. É o que o deputado Roberto Campos (PPB-RJ) chama de cristão-novo do capitalismo. Essa hesitação o enfraquece na hora das votações decisivas. O partido teme a vaia e sente-se inibido com o patrulhamento da esquerda, onde grande parte de suas estrelas (inclusive o presidente da República) formou-se. O governo então opta, na hora das votações mais delicadas, pelo profissionalismo do PFL, que não lhe tem negado fogo.
O PMDB é, dos três, o mais frágil - e não exatamente por ter aderido ao governo após a posse. Isso seria secundário. A questão foi abordada pelo próprio Simon: o PMDB é um corolário de partidos, abrigados sob a mesma sigla. Há o PMDB de Orestes Quércia, o de Paes de Andrade, o de Pedro Simon e o de José Sarney. Nem todos se cumprimentam e quase ninguém se entende.
Quando o partido negocia com o governo, garante apenas parcela dos votos que possui. A outra parcela é ingovernável e exige conversas sem intermediação de lideranças. O fisiologismo peemedebista distingue-se do pefelista exatamente nisto: é caótico e indisciplinado. Em suma, a falta de projeto e comando na facção centro-esquerda da base governista, empurrou o presidente para os braços pefelistas. E não há sinais à vista de ruptura nesse casamento. Muito pelo contrário.

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