A promulgação da emenda da reeleição coloca a questão sucessória no topo da agenda política. E não apenas em nível federal, mas também nos Estados. O recente bate-boca em plenário entre os senadores Pedro Simon (PMDB-RS) e Antonio Carlos Magalhães (PFL-BA), que, há dois dias, alugou uma tarde inteira de trabalho do Senado, foi uma espécie de avant-premiére desse novo momento.
Os dois, como se sabe, duelaram em torno da figura do presidente Fernando Henrique e da legitimidade de seu projeto reeletivo. Simon questionou a legitimidade da reeleição, lembrando o ambiente de suspeitas em que a emenda foi votada e lamentando que o presidente estivesse hoje nos braços reacionários do PFL. ACM, com a gentileza que o caracteriza, censurou-lhe a lógica, os argumentos e a sintaxe.
Prevê-se, daqui para a frente, que a temperatura dos debates suba, na razão inversa de seu nível e conteúdo. Nesse sentido, é também ilustrativo e paradigmático o referido debate entre Simon e ACM. Quando a sucessão entra em cena, não se espere por coerência, bom senso ou elegância. Como dizia Moisés, não o profeta, mas um antigo beque do Bangu, há momentos em que, do pescoço para baixo, tudo é canela. Eleição - sucessão presidencial, sobretudo - é um desses.
A reeleição coloca problemas distintos para governo e oposição. Para o governo, cria novas restrições ao processo de reformas e à gestão da economia, já que medidas antipáticas deixam de ter viabilidade política no Congresso. Daqui para a frente, ninguém quer se comprometer com nada que gere danos eleitorais.
As reformas pendentes - a previdênciária, administrativa e a fiscal - propõem iniciativas impopulares, que vão desde a quebra da estabilidade do servidor público até a redução de benesses em aposentadorias e tempo de serviço. O governo, claro, prepara-se para redimensionar suas propostas, na certeza de que, para chegar aonde quer, precisa aguardar novo mandato. Este, do ponto de vista das mudanças estruturais, está próximo do fim.
Para a oposição, é hora de definir alianças, nomes e estratégias de ação. Por incrível que pareça, em dois anos e meio de governo, os oposicionistas não cuidaram de nada disso. Na próxima quarta-feira, o bloco de oposição reúne-se na Câmara, com a presença de seus principais caciques - Brizola, Miguel Arraes e Lula -para avaliar desempenho e estratégias futuras. Será o primeiro encontro desde a promulgação da emenda da reeleição. Prevê-se uma série deles na sequência, a menos que ninguém se entenda já no primeiro (o que não é exatamente impossível).
Há uma espécie de consenso de que a oposição deve marchar unida. O problema é saber em torno de quê e de quem. Em regra, cada cacique se acha o mais adequado. Desta vez, porém, o consenso é às avessas: todos estão conscientes de que são inviáveis, por razões distintas. Brizola e Arraes estão cansados de guerra e Lula enfrenta resistências internas consideráveis no PT. Até aqui, a vantagem é de FHC.

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