Brasília - Ruy Fabiano
O governo, em curto espaço de tempo - não mais que duas semanas -, operou a façanha de contornar crises políticas de profundidade em sua base parlamentar. Diluiu e detonou uma proposta de CPI - a da compra de votos -, aprovou em caráter definitivo a emenda da reeleição e, de quebra, mudou o comando de sua articulação política.
Com isso, ganhou a batalha da comunicação. A oposição, que se esforça em manter acesa a chama da indignação, fruto das denúncias ainda não esclarecidas de compra de votos na Câmara, viu-se enfraquecida e embaraçada com outra denúncia, produzida em seu próprio quintal: a de irregularidades em gestões municipais do PT, com acusações de tráfico de influência contra Lula e a empresa CPEM.
O governo, nesse caso específico, serviu-se da velha máxima segundo a qual nada como um novo escândalo - sobretudo no campo adversário - para abafar o da véspera. O do PT não era (não é) exatamente novo (o que não o torna menos grave), mas como tal foi tratado - e, nesses termos, foi de enorme eficácia diluidora. Em suma, até aqui, a coordenação política do governo deu show de efeitos especiais.
Nada disso, porém, aconteceu de modo indolor ou sem efeitos colaterais. Custou-lhe, no mínimo, um brutal aumento de sua taxa de dependência política. Mais que nunca, o governo está nas mãos do PFL. Foram os pefelistas os principais estrategistas de todo esse processo.
O partido agiu com rapidez na expulsão e cassação dos seus parlamentares envolvidos na compra de votos. O presidente do Senado, Antonio Carlos Magalhães (PFL-BA), acelerou o processo de votação da emenda da reeleição (em duas semanas, a emenda foi votada na Comissão de Constituição e Justiça, nos dois turnos do plenário e promulgada), ignorando todas as objeções, inclusive junto ao Supremo Tribunal Federal. Praticou aí a política do fato consumado. Se a emenda, como alguns queriam, aguardasse o refluxo da crise política para prosseguir sua tramitação, poderia simplemente ter sido engolida por ela.
Foi também ACM quem dobrou as resistências de seu filho, Luís Eduardo, para que assumisse a liderança e coordenação política do governo. Esqueceu-se, claro, de avisar ao então líder Benito Gama (PFL-BA), o que, para ACM, foi um detalhe. Tancredo Neves dizia que não se faz política sem vítimas. ACM obviamente sabe disso e, ao tomar conhecimento das queixas de Benito, avisou: Na Bahia, sua base é só o PFL. Tradução: Aguenta firme ou cai fora. Benito, claro, aguentou.
O governo respira aliviado com a superação da crise. Mas não terá tempo (nem motivo) para festejar. A sucessão já está nas ruas - e não apenas no plano federal. Com a reeleição, cada Estado passa a ter seu próprio palanque. A disputa entre parlamentares que querem concorrer ao governo e governadores que querem reeleger-se promete boas dores de cabeça a Fernando Henrique.
Mais que nunca, o governo é refém de sua base política, sobretudo de sua porção mais profissional (no sentido amplo, geral e irrestrito do termo): o PFL.





