É improvável que a indicação de Luís Eduardo Magalhães (PFL-BA) para líder do governo na Câmara venha a alterar substancialmente o quadro de dificuldades de Fernando Henrique junto a sua base parlamentar.
Não se trata de subestimar o novo coordenador político. A questão é que os entraves ao bom funcionamento do processo político independem de quem esteja no comando das articulações. O sistema é perverso e disfuncional. Ao coordenador político, restam duas alternativas: ou se rende às perversões do processo ou desiste.
Por perversões, entenda-se a inexistência de vínculos programáticos dos parlamentares com seus partidos. Não havendo fidelidade partidária, nada obriga nenhum deputado ou senador a votar dessa ou daquela maneira. Sem fidelidade, cada parlamentar, governista ou oposicionista, é um partido - ou um guichê. Ao coordenador político, resta partir para o corpo a corpo, a cada votação, negociando cada voto, sabe-se lá com que moeda.
As fitas recém-reveladas com o escândalo da compra de votos para a reeleição dão uma pálida idéia do que é possível acontecer no processo de construção de maiorias, a cada votação. Alguém imagina que a história contada pelos ex-deputados Ronivon Santiago e João Maia aconteceu pela primeira vez - e só com eles? Qualquer pessoa medianamente versada nos bastidores da política nacional já ouviu diversas histórias similares - e não apenas neste governo.
Luís Eduardo, a rigor, não estreará em coordenação política. Coube-lhe, quando presidente da Câmara, exercer informalmente essa função, o que lhe valeu críticas por parte de numerosos colegas. Foi acusado de ter transformado a Câmara em sucursal do Palácio do Planalto. O importante, no entanto - pelo menos do ponto de vista de suas relações com o presidente da República -, é que facilitou enormemente o fluxo das propostas governistas na Câmara enquanto a presidiu. Isso o credenciou ao presente convite, que hesitou em aceitar, não por charme, indiferença ou inaptidão para o poder (muito pelo contrário), mas por temor aos seus efeitos colaterais.
A guerra das vaidades não chega a assustá-lo. Quem a teme não opera nesse ramo, cujo combustível fundamental é exatamente esse. O que o preocupa são as escassas chances de sucesso operacional. O governo não aprovou ainda as reformas fundamentais - administrativa, fiscal e previdênciária - e já colocou em cena o proceso sucessório. A aprovação pelo Senado da emenda da reeleição, em segundo turno, coloca a sucessão na ordem do dia, o que torna as coisas bem mais complicadas.
As resistências que aguardam Luís Eduardo são bem maiores que as enfrentadas (e não superadas) por Luís Carlos Santos e Sérgio Motta, que o precederam na função. A frase do deputado Moreira Franco (PMDB-RJ) define bem o ambiente - e resume o quadro que aguarda Luís Eduardo: ‘‘Hoje, aqui, só passa moção de solidariedade a entidade de combate ao câncer - e olhe lᒒ.

mockup