O deputado paulista José Aristodemo Pinotti, presidente da Fundação Pedroso Horta, o Instituto de Estudos Políticos do PMDB, está à frente de missão espinhosa: dotar o seu partido, outrora o mais influente e popular do Brasil, de novo programa e ideário, em sintonia com os tempos modernos, de vertiginosa mutação.
O PMDB é ainda o partido com maiores bancadas no Congresso, mas está longe de ser o mais influente ou popular. A rigor, não há mais partido propriamente popular no país. Cavou-se, nos últimos anos, considerável abismo entre políticos e opinião pública. Vota-se mais em função da compulsoriedade eleitoral que por entusiasmo cívico.
Esse o maior desafio de Pinotti: dar conteúdo realista ao programa do partido. Ele tem mobilizado as bases, pedido sugestões e encontrado até algum interesse participativo. Mas está longe de chegar a um denominador comum. O partido ainda guarda considerável heterogeneidade, fruto de sua origem de frente partidária. Enquanto havia no seu comando a liderança ecumênica de Ulysses Guimarães, era possível manter todas as facções unidas por esse denomiandor comum.
Extinta aquela liderança, cada bancada tornou-se um partido independente. Em alguns casos - é o de São Paulo, por exemplo -, uma mesma bancada abriga variadas tendências, algumas inconciliáveis. Pinotti não se dá com Quércia, que não se dá com Luís Carlos Santos, que não se dá com Alberto Goldman, que não se dá com ninguém (e está indo para o PSDB). Essa desunião enfraquece o partido e explica por que, sendo o maior entre os que integram a base parlamentar do governo, não consegue ser o mais influente. Perde de goleada para o PFL.
Dá-se aí o contrário do que acontecia no governo Sarney, cuja base parlamentar era formada também a partir da dobradinha PMDB-PFL. Naquela ocasião, o PFL estava a reboque do PMDB, que lhe concedia migalhas ministeriais e nenhum espaço no centro das decisões.
Pinotti vê o PMDB à margem do poder, muito embora dois peemedebistas tenham acabado de ser nomeados ministros - Íris Rezende, da Justiça, e Eliseu Padilha, dos Transportes. O partido não se vê refletido nos dois, que são lideranças regionais. O presidente Paes de Andrade tem escassa voz de comando. O Palácio do Planalto, quando quer os préstimos do partido, precisa ceder aos métodos clássicos de cooptação de aliados. Sem fidelidade partidária, inútil escrever programas, formular ideários e metas. Falta o elo jurídico que estabelece o compromisso. Na ausência dele, estabelece-se o toma-lá-dá-cá.
Pinotti acha que há um imenso espaço a ser ocupado entre o neoliberalismo predatório e excludente que boa parte da base governista adotou e o esquerdismo anacrônico de boa parte da oposição. Não discute o determinismo histórico da globalização, mas insiste em que é possível aderir de modo crítico e criterioso ao processo.
Quer que o novo programa do PMDB ofereça um projeto de poder alternativo ao que aí está, para que então o partido saia em busca de um personagem capaz de vocalizá-lo. E aí está algo mais difícil que formular um projeto de poder ao partido: encontrar quem o expresse.

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