Brasília - Ruy Fabiano
A formação de um ministério apolítico (se isso é possível), eminentemente técnico, a partir de dezembro - o ministério da reeleição - é anunciada pelo governo como garantia de isenção eleitoral da máquina administrativa. Sem políticos a bordo, o governo estaria imune às tentações de uso lesivo da estrutura em benefício do presidente.
Em termos. A ausência de políticos nas funções de comando pode, muito ao contrário, dar maior coesão e disciplina à estrutura da máquina em benefício da reeleição. A presença de políticos, sobretudo num governo sustentado por aliança tão eclética, poderia resultar em disputa interna, com resultados práticos ruins.
O governo procura conferir à mudança conteúdo ético. Diz que os programas-chave para o ano que vem serão anunciados esta semana, de modo a não serem citados, na ocasião, como casuísmos. Não é o anúncio prévio que retira essa característica do programa, mas o programa em si. E o que se sabe é que o governo pretende anunciar iniciativas simpáticas na área social e na educação. Não se pode criticá-lo por isso, mas talvez indagar por que esperou o último ano de mandato para fazê-lo.
Se o ministério técnico, com capacidade gerencial comprovada, como quer o presidente, consegue resultados melhores do que o ministério político, por que só mudá-lo em dezembro? Se pudesse, o presidente o mudaria agora. Está farto de administrar a aliança política que o sustenta, cujo ecletismo e fisiologismo tornam o convívio caro e penoso - e arriscado também. Basta ver o calibre dos personagens envolvidos no escândalo amazônico das fitas da releeição.
Mas o presidente precisa ainda suportar esse convívio por mais um semestre, no mínimo, prazo em que espera aprovar mais algumas reformas, sem as quais a estabilidade econômica corre riscos.
A partir desta semana começa o mutirão das reformas, nome dado pelos líderes governistas à articulação pela rápida aprovação das propostas consideradas mais urgentes. Enquanto elas perdurarem, o presidente não pode demitir ninguém. Cada pasta ministerial é um gueto partidário - e cada parlamentar um guichê em potencial. Todos estarão atentos à presença inconveniente de gravadores, mas a operação toma-lá-dá-cá continua sendo o método mais eficaz para garantir resultados.
Findas as reformas - e o governo intui que isso acontecerá pelo fim do ano -, será a hora da demissão conjunta (que inclui Sérgio Motta, se ele durar até lá). Quase todos os ministros são políticos - e os que não têm mandato são filiados a partidos. A exceção é a área econômica, única livre do loteamento partidário. Com a retaguarda garantida por obedientes burocratas, o presidente estará à vontade para subir em palanques, resguardado, ao menos nas aparências, de acusações incômodas de manipulação da máquina.
Tudo muito engenhoso e articulado na aparência. Resta ver o conteúdo, que, em política, quase nunca guarda coerência com o invólucro.





