O governo continua jogando na diluição do impacto das denúncias de compra de votos na Câmara para a aprovação da reeleição. A renúncia do deputado Almino Affonso (PSDB-SP) à relatoria da Comissão de Constituição e Justiça da Câmara, incumbida de julgar os acusados, foi um momento importante nesse processo, esvaziado em função do feriadão e do advento de outra denúncia de corrupção, envolvendo Lula e o PT.
Além da escassa tradição punitiva brasileira, sobretudo no âmbito político-institucional, contribui para o êxito da estratégia diluidora o inesgotável repertório de denúncias. Nada como um novo escândalo para tornar o da véspera desinteressante. A sucessão deles é a garantia de absolvição de todos. Assim pelo menos tem sido desde o tempo dos vice-reis.
O gesto de Almino Affonso confirmou o que tem sido dito e repetido desde o início: o único instrumento realmente eficaz para investigar e punir os culpados é a Comissão Parlamentar de Inquérito. Ela tem poderes para ouvir qualquer pessoa, parlamentar ou não, e quebrar sigilos bancário, telefônico e fiscal.
A comissão de sindicância só podia ouvir os deputados. Idem, a Comissão de Constituição e Justiça. No caso específico do escândalo da compra de votos, ouvir apenas os deputados significa mais uma vez punir o corrompido e desprezar o corruptor. Corrupção, como se sabe, é via de mão dupla: alguém recebe porque alguém paga - e ambos delinquem. É injusto que apenas Ronivon e João Maia percam o mandato, enquanto os que os corromperam continuam onde estão.
O governo não quer uma CPI porque conhece o perfil de seus aliados. Sabe que, a partir dos personagens já citados e expostos, podem surgir muitos outros nomes, alguns até de maior peso e envergadura. As lideranças governistas no Congresso apostam no êxito de algumas manobras diluidoras previstas para esta semana: o início do mutirão das reformas, o anúncio de programas de governo para o ano da reeleição e os desdobramentos das denúncias de corrupção contra o PT.
É possível que funcione, muito embora as proporções que vem assumindo o escândalo transamazônico do governador Amazonino Mendes mantenham acesa a chama das denúncias de compra de votos.
Solidariedade - O ministro Sérgio Motta, o braço executivo do presidente e seu amigo íntimo, continua a se comportar como se nada houvesse acontecido. Um parlamentar governista contou a esta coluna que teve a infeliz idéia de telefonar para Motta em Lisboa para solidarizar-se com ele pelos recentes acontecimentos.
Para sua surpresa, em vez de comover-se com as manifestações, Motta reagiu com fúria incontrolada: ‘‘Que história é essa de solidariedade? Solidariedade é pra quem está fraco, pra quem está caindo. Eu continuo do mesmo jeito, ouviu? Não me aconteceu nada, nem vai acontecer’’. O interlocutor não duvidou - e arrependeu-se do gesto.

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