A idéia de se convocar uma CPI ampla, geral e irrestrita sobre corrupção, cogitada há dias pelo líder do PT no Senado, José Eduardo Dutra (SE), produziria um único (e suficiente) embaraço: muitos parlamentares estariam simultaneamente no lugar de acusador e acusado.
Se a estrutura político-eleitoral brasileira é viciada - e ninguém que a conheça duvida disso -, como supor que há inocentes a bordo? Pode haver - e há - graus diferenciados de envolvimento, mas ninguém escapa às regras do jogo, que são intrinsecamente perversas. A equação é inapelável: sem dinheiro (muito dinheiro), ninguém se elege nada. A partir daí, a fronteira entre o bem e o mal é mera hipótese.
As doações legais, que garantem isenções fiscais aos doadores, são insuficientes para cobrir os gastos. Os candidatos não se arriscam a gastar o patrimônio pessoal em campanhas. Resta o recurso aos grandes grupos econômicos - empreiteiras e bancos, sobretudo.
Como ninguém doa dinheiro pelos belos olhos de ninguém, essas doações, recursos de caixa dois, garantem poder de influência aos doadores, o que retira dos eleitos a indispensável independência para exercer seus mandatos. Uma investigação profunda, rastreando contas bancárias e custos efetivos de campanha, mostraria que todos são cúmplices do mesmo delito (variando, repita-se, o grau de intensidade).
Daí o pânico à proposta da CPI das Empreiteiras. A idéia de uma CPI Geral da Corrupção surgiu em reação às acusações contra Lula, feitas pelo economista Paulo de Tarso Venceslau. Os líderes governistas Aécio Neves (PSDB) e Geddel Vieira Lima (PMDB) pediam uma CPI para investigar as acusações contra Lula, de tráfico de influência em favor da empresa CPEM, em operações lesivas ao erário de alguns municípios governados pelo PT. Os petistas concordavam, desde que fosse igualmente instalada a CPI das Empreiteiras e a da Reeleição.
Nesse bate e rebate de CPIs - um sintoma da enfermidade moral da vida pública brasileira neste fim de século -, chegou-se à síntese comovente do senador sergipano: a grande CPI da Corrupção, que abrangesse compra de votos, doações eleitorais, ação das empreiteiras e, claro, as acusações contra o PT.
As CPIs do PC e do Orçamento foram seguramente as mais devastadoras da história republicana brasileira. A primeira resultou no impeachment do presidente da República, e a segunda na cassação e renúncia de diversos parlamentares, alguns dos quais cabeças coroadas da instituição. Apesar disso, ficou no meio do caminho. Identificou e puniu apenas os corrompidos. Ignorou os corruptores.
Para que o serviço fosse completo, era preciso convocar a CPI das Empreiteiras, reiteradamente pedida pelo senador Pedro Simon - e reiteradamente indeferida pelos partidos governistas (incluindo o do requerente, o PMDB). O Congresso seguramente não declarará uma guerra de extermínio contra si mesmo. Continuará a faxina no varejo. A menos, claro, que a sociedade exija algo diferente (o que não é ainda o caso).

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