Os petistas, em desconforto com as denúncias de um correligionário, o economista Paulo de Tarso, contra Lula e gestões administrativas passadas do partido, acreditam que há claro propósito de tentar levantar cortina de fumaça sobre o escândalo da compra de votos pelo governo Fernando Henrique na Câmara.
O argumento básico é o seguinte: as denúncias já haviam sido formuladas antes, não tendo, pois, qualquer ineditismo que as tornasse atraentes neste momento. Ressuscitá-las teve o propósito apenas de enfraquecer a autoridade moral do partido, que está na linha de frente dos que cobram uma CPI para investigar as denúnicas contra o governo.
É bem provável que o raciocínio esteja correto. A difusão das denúncias, neste momento, serve aos interesses diluidores do governo Fernando Henrique na questão da compra de votos. Nada como um novo escândalo (ainda que não seja exatamente novo) para abafar um velho. Do ponto de vista estratégico, é possível que seja isso mesmo.
Do ponto de vista ético, no entanto, a queixa é furada. Não é a idade de um delito que o torna mais ou menos aceitável. As denúncias de tráfico de influência e de atos lesivos ao erário de diversas prefeituras governadas pelo PT, formuladas contra Lula e a empresa CPEM são graves. Lula é compadre do proprietário da empresa, em cujo imóvel reside há oito anos, sem pagar aluguel. Usou seu prestígio para forçar prefeituras geridas pelo partido a fechar contratos lesivos.
A rigor, o fato de a denúncia não ser nova só a agrava. Por que não foi apurada antes? Por que jamais o partido deu atenção a acusações de tal ordem, formuladas por um economista de biografia respeitável, que exerceu funções de confiança no partido e foi secretário de Finanças de duas prefeituras petistas? A idade da denúnica é agravante - não atenuante.
O governo, como é óbvio, diverte-se com o embaraço do adversário e tenta tirar proveito da circunstância. Mas não apenas ele. A luta interna pelo comando do PT está há muito em curso. A facção do partido que não mais quer ver Lula candidato à presidência - e certamente o economista Paulo de Tarso a integra - exulta com o acontecimento. A alternativa partidária a Lula é o ex-prefeito de Porto Alegre Tarso Genro, cujo nome, no entanto, tem alcance apenas regional.
Genro quer que a discussão sucessória comece já, para que, na eventualidade de ser escolhido, disponha de tempo hábil para trabalhar nacionalmente seu nome. Lula quer essa discussão lá para dezembro. Genro acha que, nessa hipótese, não haverá outra alternativa ao partido senão optar por Lula, nome já suficientemente conhecido.
Lula tem, quanto a isso, comportamento ambíguo: diz que não é candidato, que será cabo eleitoral de Tarso Genro, mas não concorda em conceder o prazo que considera mínimo para viabilizar-se. Óbvio: Lula não quer Tarso Genro. Essa briga divide o partido. E as denúncias contra Lula representam mais um golpe contra sua candidatura.

mockup