Brasília - Ruy Fabiano
Em um ponto ao menos, embora por razões distintas, a equipe econômica e a base parlamentar do governo estão de acordo: as reformas constitucionais devem prosseguir. A equipe econômica vê nelas a consolidação do Plano Real, a garantia das conquistas até aqui obtidas, além, claro, de sinalização positiva para investidores externos.
A base parlamentar vê outro filme: a continuidade de suas relações fisiológicas com o governo. Enquanto houver reformas - e enquanto estiverem no centro dos acontecimentos -, o balção de negócios estará a pleno vapor. O presidente se diz refém dos três quintos de votos de que precisa para aprovar as reformas. E a base parlamentar acha isso normalíssimo e nem de longe pensa em mudar de assunto.
Dentro de seu cansaço, o presidente chega a dizer que não quer mais depender das reformas, que estão na base de seu discurso eleitoral e constituem o eixo de gravidade de seu governo. Pesa no ânimo do presidente, como é óbvio, o desgaste imposto pelo recente escândalo de compra de votos na Câmara para aprovação da emenda da reeleição, que arranhou sua imagem pública, até então intacta.
Quem acompanha o processo político-parlamentar sabe perfeitamente que o affair em torno dos agora ex-deputados Ronivon Santiago e João Maia não constitui fato isolado. Muito pelo contrário. A singularidade está apenas na circunstância de alguém ter documentado a operação e a tornado pública. Nada mais.
Deve ser constrangedor para o presidente, com sua requintada formação acadêmica, constatar que a mão-de-obra dísponivel para operar as transformações que idealizou para o país tem, em grande parte, o perfil daqueles dois deputados acreanos. O ministro Sérgio Motta, desde o início, foi o efetivo articulador político do governo.
Coube-lhe lidar com essa realidade nua e crua. O ministro da Coordenação Política, deputado Luís Carlos Santos (PMDB-SP), chegou bem depois - e, mesmo assim, exerce função complementar à de Motta, que detém o comando operacional. Agora, porém, com as denúncias, Motta inviabilizou-se para continuar à frente desses trabalhos.
Mais que nunca, o deputado Luís Eduardo Magalhães (PFL-BA) está sendo instado a aceitar um cargo no governo para restaurar e centralizar a articulação política. Luís Eduardo, acusado de ter exercido a presidência da Câmara como se fosse uma sucursal do Executivo, tal sua dedicação ao presidente da República, é tido como articulador competente, em condições de reorganizar a base parlamentar do governo, que está desorientada com os últimos acontecimentos.
A equipe econômica insiste para que o presidente reconsidere seus desabafos e retome imediatamente as reformas. Política, já ensinava Tancredo Neves, não se faz com emoção. A base parlamentar, claro, agradece.





