Brasília - Ruy Fabiano
Não poderia haver melhor argumento em favor de uma CPI da reeleição que a renúncia, ontem, dos deputados Ronivon Santiago e João Maia, ambos do Acre, envolvidos no escândalo da compra de votos na Câmara. A renúncia foi a saída encontrada para escapar à comissão de sindicância, cujos poderes restringem-se aos membros da Câmara.
Despojados dos mandatos, os dois acusados, que confessam nas fitas ter recebido dinheiro para votar pela reeleição, estão livres de seus inquisidores. Se estivesse em funcionamento uma CPI, a história era outra, já que seus poderes convocatórios não têm limites.
O governo, até aqui, tem tido êxito nas manobras de bastidores para evitar a CPI. Está perdendo, no entanto, a batalha da opinião pública. É visível o desgaste que o episódio trouxe à imagem do presidente e de seu governo. Desconhece-se o destino político que será dado ao ministro das Comunicações, Sérgio Motta, o mais íntimo auxiliar de Fernando Henrique e um dos responsáveis pelas articulações em prol da reeleição. É claro que o ministro, posto sob suspeição pelas gravações (que o acusam de estar à frente do processo de compra de votos), perdeu as condições políticas para continuar onde está.
Deixou de ser um auxiliar e tornou-se um transtorno político para o presidente, uma espécie de mala sem alça, à espera de quem a possa carregar. Não fosse essa vinculação estreita com o presidente, e Sérgio Motta já teria seguramente sido exonerado. Como se trata de um superministro, não é tão simples. Demiti-lo pode equivaler a condená-lo. Conservá-lo, por sua vez, pode ser interpretado como conivência ou desprezo às acusações. Qualquer das hipóteses é adversa.
As oposições, que estavam desesperadamente em busca de um mote de peso que atingisse o governo, rejubilam-se com o achado. A defesa das empresas estatais, única causa até aqui sustentada, não possui o apelo popular necessário para contrapor-se à bandeira do Plano Real. Mesmo as bandeiras sociais, como reforma agrária e desemprego, enfrentam a contra-argumentação do governo, que sempre invoca o Plano Real como álibi para tudo, inclusive para sua omissões.
As denúncias têm apelo especial. Ferem fundo um dos aspectos vitais do patrimônio político de Fernando Henrique: a credibilidade. Ninguém, até aqui, ousou dizer que o presidente está por trás das falcatruas, mas ninguém também disse o contrário.
Sabe-se que o presidente não se envolve diretamente nas operações fisiológicas correntes em sua base parlamentar. Mas, como político razoavelmente experiente (estreou, como senador, em 1982), não desconhece o teor dessas operações. A CPI afigura-se a seu governo como um bicho-papão, capaz de devorá-lo literalmente.
Ainda que não viesse a resultar num impeachment - algo improvável, pois Fernando Henrique não é Collor -, teria efeito paralisante sobre as reformas e letal sobre a reeleição.





