Brasília - Ruy Fabiano
O governo Fernando Henrique enfrenta seu pior momento, desde a posse. As denúncias de compra de votos para aprovação da emenda da reeleição produzem estragos ainda não dimensionados à imagem do governo -e atingem com maior contundência o ministro das Comunições. Sérgio Motta.
Como Motta é, de longe, o ministro mais próximo do presidente - é tido até como uma espécie de alter ego seu -, é inevitável que o desgaste também o atinja. Não apenas: a oposição está, há tempos, em busca do calcanhar-de-aquiles do presidente, cujos índices de popularidade, desde a posse, têm se mantido elevados. As denúncias, como é óbvio, oferecem essa oportunidade.
O presidente tem reservas de credibilidade. Sua biografia, sua condição de intelectual internacionalmente respeitado, sua conduta pessoal ainda funcionam como anteparos aos golpes pessoais que lhe são dirigidos. Ainda. Se fosse um neófito como Fernando Collor, sem bagagem e com referências duvidosas em seu passado, as denúncias já teriam operado estragos bem maiores.
A CPI do PC, como se recorda, instalou-se a partir de denúncias verbais do irmão de Collor, Pedro. Não foi necessária uma fita ou qualquer outro documento. Ele disse, numa entrevista, que PC cumpria ordens do chefe - e que o chefe era o presidente. Nada mais. A partir daí, desencadearam-se as investigações que levaram a opinião pública a clamar pelo impeachment. Fernando Henrique não é Collor, nem Sérgio Motta é PC, mas o teor inicial das denúncias é mais grave que o daquelas que deflagraram a CPI do PC.
Afinal, o personagem central da acusação do deputado acreano Ronivon Santiago, Sérgio Motta, está dentro do governo, gerindo interesses consideráveis na área de telecomunicações e espaços importantes de poder político. Qualquer parlamentar que quisesse resolver demandas junto ao núcleo central do poder sabia que não havia melhor endereço que o Ministério das Comunicações. A oposição explora o nome de Motta e, por meio dele, quer chegar ao presidente. Políticos mais experientes acham que Fernando Henrique deveria evitar manifestações sobre o assunto - e que falhou politicamente ao não fazê-lo. Comentários do presidente fatalmente serão explorados contra ele.
O presidente é vítima das alianças fisiológicas políticas que selou. Pretender modernizar o país a partir de coligações com a porção mais arcaica do quadro partidário é um assombroso paradoxo que o presidente decidiu enfrentar, na expectativa de que, com sua habilidade pessoal, saberia dar um jeito, sem capitular àquelas práticas. Está perdendo de goleada.
VALORMais atual que nunca a clássica sentença do Barão do Itabaré: O homem que se vende vale sempre menos que o que recebe.





