A nota oficial do PT protestando contra as críticas do porta-voz da Presidência, Sérgio Amaral, ao partido praticamente põe uma pedra sobre a proposta de diálogo entre Lula e Fernando Henrique Cardoso. Desde as eleições, os dois não se encontram, nem se cumprimentam.
Amaral responsabilizou o PT pelas manifestações de protesto contra a comitiva presidencial, terça-feira passada, na fronteira do Brasil com o Uruguai. Foi o pretexto que faltava para melar a idéia do encontro, proposto por Fernando Henrique, na sequência da marcha dos sem-terra em Brasília, há duas semanas.
A rigor, o alívio é recíproco. O governo, especialmente depois das manifestações de protesto contra a venda da Vale do Rio Doce, em que o PT foi presença dominante, também já não via sentido no encontro. Não há clima, nem vontade política nas respectivas bases. Lula, que chegou a aceitar o convite, afirmou previamente que seria inútil.
O alto comando do PT, por sua vez, avaliou-o como negativo aos interesses estratégicos do partido, pois não alteraria a conduta, nem os objetivos programáticos do governo e serviria apenas para fortalecer a imagem de democrata de Fernando Henrique, em plena campanha para reeleger-se.
Os dois lados, na verdade, já falam em tom de campanha eleitoral. A nota do PT adota, em alguns trechos, tom panfletário, acusando o presidente de ‘‘aliado das forças de direita, que serviram à ditadura’’. Nenhum dos lados, no entanto, quer assumir a responsabilidade pela recusa. O governo não retirou o convite, nem o PT formalizou a negativa. Ao contrário. Ontem, o deputado José Genoíno, um dos raros petistas que defendia a importância do diálogo, acusava Fernando Henrique, em tom de lamento (nada convincente), de ‘‘estar jogando areia no encontro com Lula’’.
Quanto à importância propriamente dita do encontro, o PT tem razão: teria efeito meramente coreográfico. Não há, nas respectivas bases, a mais remota disposição de estabelecer um programa consensual em torno das questões sociais mais agudas, como reforma agrária e desemprego. Cada qual vê o filme da atual conjuntura pelo viés de seus interesses, em que outro, longe de ser um parceiro eventual, é apenas um obstáculo a ser derrubado. Nada mais.
DESMENTIDO A Embaixada dos Estados Unidos enviou carta a esta coluna desmentindo declaração, aqui publicada, atribuída à secretária de Estado Madeleine Albright, quando de seu depoimento ao Congresso americano. A frase é: ‘‘O Mercosul é nocivo aos interesses dos Estados Unidos’’.
Diz a embaixada que a secretária jamais proferiu tal sentença. No entanto, ela foi estampada nos principais jornais brasileiros e reproduzida num artigo indignado do senador José Sarney. Como o desmentido tardou - muito, já que a fala da secretária é de janeiro -, natural que a frase gerasse mal-estar e provocasse os comentários que provocou.

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