Brasília - Ruy Fabiano
O PT já começa a questionar a conveniência de um encontro entre Fernando Henrique e Lula. O partido acha que esse tipo de conversa não leva a nada e beneficia apenas o presidente da República, que, a seguir, posará de democrata, cultor do diálogo e coisas do gênero.
Concretamente, é esse o pensamento dominante no partido, nada resultará dessa conversa, que até aqui não tem data, nem agenda. O presidente Fernando Henrique não mudará sua política de privatizações, não recuará das reformas, não deixará de abusar das medidas provisórias, nem desfará sua aliança com as forças conservadoras e fisiológicas, que predominam nos partidos que o apóiam no Congresso.
Nessas circunstâncias, perguntam as principais lideranças partidárias, qual o sentido da visita de Lula ao Palácio do Planalto? O convite para o diálogo partiu de Fernando Henrique, na sequência da marcha dos sem-terra em Brasília. Lula disse que, em princípio, topava. Não ficaria bem dizer nada em contrário naquele momento, quando o presidente recebia em Palácio o MST e prometia acelerar os procedimentos da reforma agrária.
Na semana seguinte, porém, Fernando Henrique participou de cerimônia pública com produtores rurais, onde voltou a condenar os métodos operacionais dos sem terra, reiterando a ilegalidade das invasões. Na sequência, deu-se a luta pela privatização da Vale do Rio Doce, que resultou em sucessivas batalhas judiciais, repressão policial a protestos de rua (em regra, comandados pelo PT) e consumação do leilão daquela estatal na bolsa do Rio.
Os ânimos petistas estão exaltados. O alto comando do partido, avesso a qualquer aproximação com o governo, quer, muito ao contrário, aproveitar a oportunidade para valorizar os contrastes e marcar com nitidez suas divergências da política oficial. Acha que, enquanto atender a acenos ao diálogo, passará à opinião pública a idéia de que há amplo campo de entendimento entre oposição e governo.
Lula, pessoalmente, acredita que há. Tanto que tem defendido o diálogo, sem prejuízo de sua condição de oposição. Tarso Genro, seu principal rival na corrida interna pela condição de presidenciável do PT, acha que não.
Defende que o partido radicalize suas posições e ocupe solidamente o espaço da esquerda partidária, já que o espaço de centro-esquerda está engarrafado. Tarso acha que a sucessão presidencial já foi deflagrada pelo próprio Fernando Henrique desde a aprovação, na Câmara, da emenda da reeleição.
Tudo o que o governo faz, politicamente, desde então, é parte da campanha. O gesto de diálogo, inclusive. O PT, segundo ele, não deve ceder a esses acenos e deve manter acesa a chama da indignação, que já brilhou com mais intensidade nas lutas em defesa da Vale do Rio Doce. Os palanques da sucessão, como se vê, já estão montados de parte a parte.





