O ex-ministro Mailson da Nóbrega costuma dizer que a adesão da sociedade brasileira ao Plano Real é precária e oculta um paradoxo, gerado pelo desconhecimento de causa. De um lado, há o entusiasmo geral com o fim da inflação e a estabilidade da moeda; de outro, uma resistência poderosa em tornar essas conquistas definitivas.
Com o mesmo ardor com que se defende o real, diz Mailson, resiste-se às reformas estruturais em curso no Congresso e ao processo de privatização. Sem essas coisas, no entanto, o real é uma conquista frágil, que já começa a fazer água. Sem os meios de consolidá-lo em caráter permanente, o governo é obrigado a valer-se de artifícios, cada vez menos eficazes - e sempre impopulares.
Os mais evidentes são a contenção do crédito e o pé no freio do crescimento econômico. Sem as reformas, repetem os mentores da política econômica, não dá para liberar o processo econômico. O país voltaria à ciranda inflacionária. O presidente Fernando Henrique sente-se refém do Congresso, que é submisso a interesses fisiológicos e corporativistas. Breca as reforma mais urgentes, estabelecendo custos que o governo não pode bancar.
A anarquia do sistema partidário favorece esse comportamento. Sem fidelidade partidária, os partidos são mera ficção cartorial. Nenhum parlamentar está obrigado a cumprir o programa que jurou defender. Não por acaso, o vice-presidente Marco Maciel, em diversas oportunidades, defendeu a precedência da reforma política sobre as demais.
Por ser a mais delicada das reformas, já que envolve interesses pessoais dos que a irão votar, a reforma política deveria ter sido a primeira a ser votada, na sequência imediata das eleições presidenciais. Tradicionalmente, o Congresso nada nega a um presidente da República zero quilômetro. Não negou, por exemplo, a Collor nem o confisco do dinheiro da população, mesmo o sabendo inconstitucional. Não negaria, com certeza a Fernando Henrique - eleito de maneira bem mais expressiva e com muito maior prestígio pessoal - a reforma política.
Fernando Henrique, no entanto, optou por iniciar as reformas pela quebra dos monopólios, que não produziria (como não produziu) retorno imediato. Ultrapassada a marca dos cem primeiros dias de governo, que correspondem a uma espécie de trégua política com o Congresso, passou a enfrentar o jogo duro de seus próprios aliados. Até aqui, não superou essa situação. Foi-lhe dito, na ocasião, pelo então presidente do Senado, José Sarney, que, sem a reforma política, estaria condenado a permanecer de mãos e pés atados, pois o governo não disporia de caixa para bancar as exigências que se apresentariam a cada votação.
Dito e feito. As reformas estão empacadas e, mesmo reduzidas em extensão e profundidade, encontram resistências poderosas. Se a fidelidade partidária existisse, a base governista, comprometida com um programa administrativo, seria instada judicialmente a cumpri-lo. O governo está politicamente numa sinuca de bico e vê acender-se no painel de controle da economia a lua vermelha do perigo.

mockup