O presidente Fernando Henrique tem lamentado a posição radical dos adversários de seu governo - basicamente, partidos de esquerda e centrais sindicais - que têm recusado acenos sucessivos ao diálogo. O presidente não é um político ingênuo, mas, ao demonstrar surpresa com essa recusa (mais que previsível), age como se o fosse.
A um ano da campanha eleitoral sucessória, os partidos oposicionistas buscam obstinadamente pontos de colisão e divergência com o governo. Não é fácil disputar a sucessão com um presidente que desfruta de prestígio pessoal, penetração na mídia, apoio empresarial e respeitabilidade externa. O diálogo, na visão estratégica dessas lideranças, favorece Fernando Henrique - sua imagem, seus objetivos.
Não favorece, porém, os interesses pragmáticos da oposição. A palavra de ordem, nesse setor, é acirrar as divergências e neurotizar a retórica. O presidente será cada vez mais caracterizado como um político conservador, que renegou seu passado de lutas e teme o avanço social. Episódios como o da venda da Companhia Vale do Rio Doce, abstraindo-se aqui a discussão do mérito, dão ensejo a que a imagem presidencial seja exposta a críticas e suspeitas diante do público. A truculência policial diante dos manifestantes estimula comparações com os tempos do autoritarismo. Nada melhor para os objetivos oposicionistas - e nada pior para o presidente.
As bandeiras sociais, que estiveram hibernadas enquanto a economia do país estava na UTI, tratando-se de hiperinflação aguda, assumem gradativamente o primeiro plano das discussões políticas - e colocam o governo em posição defensiva, a que não estava habituado.
O presidente, como é óbvio, preocupa-se e teme estar diante do fim de sua lua-de-mel com a opinião pública. Seu governo não agendou as questões sociais entre as prioridades de seu programa. Imaginou-as resolvidas (ou ao menos administradas) no bojo do programa de reformas estruturais concebidos na sequência do Real.
Na medida, porém, em que o Real consolida-se como conquista definitiva da sociedade, as cobranças sociais segmentam-se e entopem a pauta política. São os sem-terra, os assalariados, os desempregados, os servidores que não querem ser privatizados, e assim por diante.
Muitos desses movimentos expressam dívidas sociais antigas e sustentam-se em argumentos justos e consistentes, como o dos sem-terra. Em torno deles, porém, instala-se com unhas e dentes o interesse político-partidário, que busca capitalizar dividendos eleitorais com a insatisfação que manipulam. O empenho do presidente em dialogar com esses movimentos tem o objetivo de reduzir o grau de influência das lideranças político-partidárias. É uma queda de braço interessante, em que o governo entra com imensa desvantagem, já que, ao contrário da oposição, não pode apenas prometer: precisa cumprir também.

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