O presidente Fernando Henrique não gosta da expressão reforma ministerial. Acha que sugere mudanças estruturais de profundidade, algo semelhante a uma remontagem de governo.
Não é isso o que está em pauta. O que se cogita, por enquanto, é um pequeno ajuste, a partir do preenchimento de duas pastas - Transportes e Justiça -, geridas atualmente por interinos. Estuda-se também a recriação do Ministério do Interior, que incorporaria e ampliaria as funções da Secretaria de Assuntos Regionais.
Basta, porém, falar em ministérios para estabelecer conflitos na base parlamentar do governo. O PMDB é o destinatário daquelas pastas, já que eram filiados seus os titulares anteriores: Odacir Klein e Nélson Jobim, respectivamente, ambos da seção gaúcha do partido. Klein deixou o governo após o acidente automobilístico em que se envolveu seu filho, ano passado; Jobim acaba de ser nomeado para o Supremo Tribunal Federal.
Apesar de todas as queixas contra o partido, que lhe foi infiel na votação dos destaques da reforma administrativa e nos movimentos contra a privatização da Vale do Rio Doce (para citar apenas dois acontecimentos recentes), o presidente está disposto a contemplá-lo com os cargos. Não há condições para muita exigência. O governo precisa dos votos peemedebistas para dar sequência às reformas.
Rebeldia fisiológica tem sido tratada como coisa compreensível, inevitável mesmo, perfeitamente compensável no futuro. O governo é tolerante até porque não dispõe de outra alternativa. É essa a mão-de-obra disponível para governar e são essas as regras do jogo que escolheu jogar. O PMDB é um saco de gatos e é preciso chegar a nomes que causem a menor taxa possível de insatisfação no partido.
Klein e Jobim, por exemplo, não atendiam a esse quesito. Pertencem à bancada gaúcha, que se mantém distante da direção nacional do partido e adota em relação a ela conduta crítica. Quem, porém, não divide, num partido cujo denominador comum é a demanda clientelista? Nesse ponto, o PMDB perde longe para o PFL, que consegue a façanha de compatibilizar seus apetites, que não são menores, com disciplina hierárquica, discrição e bom senso. Não por acaso, está no poder desde quando o primeiro pataxó recebeu Cabral, em Porto Seguro, há 497 anos. Mas essa é outra história. Voltemos à reforma ministerial.
O governo a prevê para o início do próximo ano, quando arregaçará as mangas para lutar pela reeleição. A reforma decorrerá da desincompatibilização de diversos ministros e da necessidade de agregar apoio para a campanha. O governo quer se antecipar aos prazos de desincompatibilização, promovendo a reforma já em janeiro e criando o ministério da reeleição. Mas esse é assunto futuro. No presente, está em pauta apenas o preenchimento daquelas pastas.

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