O presidente Fernando Henrique desfiou, em entrevista a uma rádio gaúcha, vasto rosário de queixas, em que sobraram farpas para a imprensa, o Congresso, a oposição e até para os animadores de programas de auditório da televisão (o presidente criticou, com toda razão, o baixo nível desses programas).
Fernando Henrique queixa-se de perseguição. Diz, por exemplo, que os jornais informam erroneamente que não estaria interessado nas reformas, quando, na verdade, ‘‘não faço outra coisa senão pedir que votem’’. Não é bem assim. Foi o próprio presidente quem disse, em recente entrevista à revista Veja (a citação não é literal), que o Plano Real nunca dependeu das reformas e que até achava bom que elas estivessem acontecendo num ritmo mais lento.
A declaração, na ocasião, causou espanto, já que a equipe econômica do governo sempre insistiu em vincular a consolidação do Real às reformas. Mas a declaração do presidente não foi desmentida. Está, porém, sendo contraditada pelos termos do desabafo à rádio gaúcha. As reformas estão indo mais devagar que a previsão do governo. A imprensa, com todos os equívocos que possa produzir - e certamente os produz com frequência -, está longe de ser a responsável pelo problema.
As dificuldades do governo, como já foi demonstrado exaustivamente, estão na sua base parlamentar, cujo ecletismo estabelece como traço de união entre as diversas correntes aliadas o fisiologismo. Cada votação tem sua própria história e sua própria fatura. O acertado numa votação não vale para a outra. O governo não conseguiu votar os destaques da reforma administrativa por uma razão simples: o PMDB quer saber quantos ministérios terá. Antes disso, fará jogo duro.
O presidente da Câmara, Michel Temer (PMDB), foi claro quanto a isto: ou o presidente anuncia logo os nomes dos titulares dos ministérios destinados ao PMDB ou não será possível garantir nenhum resultado favorável nas próximas vatações. Não foi a imprensa quem produziu essa realidade clientelista. Foi a própria natureza das alianças. Fernando Henrique elegeu-se na esteira de um entusiasmo: o Plano Real. Dentro do sucesso do plano, tudo o que fosse dito seria aceito, como foi. Não houve um programa de governo predefinido.
As reformas em curso e as privatizações - molas-mestras do programa governista - já tinham sido anunciadas anteriormente no governo Collor. Basta confrontar as propostas de reforma de Fernando Henrique com o Plano de Reconstrução Nacional (também chamado de Projetão) de Collor para constatar: são praticamente iguais. Não houve um compromisso das facções em torno de um ideário.
Todas se uniram em torno da palavra mágica Real. Qualquer coisa que vá além disso, só negociando. E aí haja cargos, verbas, favores e coisas do gênero. A imprensa, com todos os seus defeitos, não tem nada com isso. Reflete o problema - não o inventa.

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