A instabilidade da base política do governo, que ora lhe garante vitórias expressivas, ora (como há três dias, na reforma administrativa) lhe impõe reveses inesperados, responde também pela indefinição do processo sucessório.
Não se sabe ainda quem serão os adversários de Fernando Henrique na eleição do ano que vem - ou mesmo, a rigor, se os terá. Tirando o PT, que outro partido apresentará candidato? Quais são efetivamente os adversários do governo? E os aliados? Que alianças podem surgir? Eis um mapeamento difícil.
Há momentos em que partidos como PMDB e PPB, para citar apenas dois, assumem oratória oposicionista e atropelam interesses do governo. E há o contrário. O PMDB, por exemplo, está na expectativa de obter espaços importantes na reforma ministerial, cujos prazos e abrangências são ainda desconhecidos.
A esquizofrenia da base política governista transfere-se para dentro dos partidos - e para dentro da cabeça das lideranças. É Paulo Maluf quem, neste momento, está em dúvida: não sabe se desafia o presidente, disputando sua sucessão, ou se se alia com ele e disputa o governo de São Paulo. Itamar Franco vive dilema semelhante: oscila entre desafiar Fernando Henrique ou aliar-se com ele e disputar o governo de Minas.
A síntese é que nenhum dos dois, Maluf e Itamar, sabe exatamente se é aliado ou adversário do presidente. A situação é ambígua - e essa ambiguidade, como é óbvio, emana do próprio governo. Também o presidente ignora a questão. Nem Getúlio Vargas - autor do dito de que ‘‘não tenho amigos que não possa transformar em inimigos e inimigos que não possa transformar em amigos’’ - foi tão longe. É nesse quadro movediço que o presidente se movimenta. É dentro dele que vem tocando as reformas.
Cada votação é uma história à parte, a exigir investimentos específicos (e bota investimentos nisso). O êxito anterior não garante o seguinte. O aliado da véspera pode ser o adversário do dia seguinte. A aliança que sustenta o governo não tem base doutrinária, nem se estabeleceu em torno de metas. Sustenta-se a partir do atendimento de interesses fisiológicos.
O presidente não ignora isso, mas aposta que as reformas, reduzidos às zonas de sombra do Estado, tendem a reduzir também o fisiologismo. Estaria, assim, dentro do princípio homeopático, combatendo o vírus com ele próprio.
Quarta-feira, a base governista, não suficientemente estimulada pelos articuladores políticos do governo, negou quórum à aprovação de pontos fundamentais da reforma administrativa, como o fim do regime jurídico único e a criação de novo plano de carreira. O resultado é que terá que esperar mais duas semanas por nova votação. Até lá, haja, digamos assim, negociação.

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