A primeira reação do assim chamado ideólogo do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra, João Pedro Stédile, após o triunfo da marcha sobre Brasília, semana passada, não fez jus à sua reputação de homem inteligente.
Disse, na ocasião, entre outras coisas, que o encontro com o presidente da República não tinha maior importância e que o MST continuaria a agir como antes. Nesse caso, por que a marcha e o encontro? Se era para tudo ficar como antes, o melhor era não fazer nada.
Stédile, no entanto, reduzida a carga de adrenalina dos primeiros momentos pós-marcha, aparentemente reviu suas declarações e superou, digamos assim, o estado de idiotia aguda em que o esforço da mobilização o colocara por alguns momentos. Tornou-se, agora, entusiasta do diálogo e já admite até integrar uma comissão, sugerida por Fernando Henrique, destinada a estudar a reforma agrária.
Toda manifestação pública tem seu lado épico-holywoodiano, sobretudo marchas de protesto. Até aí, nada de mais. Essas manifestações têm o mérito de sensibilizar a opinião pública, sacudi-la para causas que lhe parecem distantes. Nesses momentos, o slogan prevalece sobre o argumento, a emoção, sobre o raciocínio. Nada mais natural.
Quando, porém, o poder se curva à pressão e admite receber as lideranças que reivindicam, é hora de colocar em cena o pragmatismo, o bom senso e a inteligência: e estabelecer conquistas. Nada mais ridículo (e inócuo) que as frases de efeito ditas ao presidente, com o objetivo de constrangê-lo. Uma delas, dita por um dos líderes do MST: ‘‘Somos contra o seu governo’’. Ninguém, claro, desconfiava disso. A resposta do presidente: ‘‘Pensei que eram a favor da reforma agrária’’.
Jamais, em toda a história do País, lideranças camponesas foram recebidas em palácio. É sinal de que algo mudou, o que não significa que não haja ainda muita coisa por mudar. Mas é inadmissível que tal conquista seja desperdiçada em meio a chavões surrados e lances exibicionistas de política estudantil dos anos 60.
A reforma agrária já foi causa ideológica. Tornou-se, com o fim da Guerra Fria, o que jamais deveria ter deixado de ser: questão sócio-econômica. Como tal, resolve-se não com slogans, mas com política agrária consistente. A recusa em participar dos fóruns onde essas coisas se decidem eterniza a condição desfavorável do trabalhador rural brasileiro. Jamais um integrante da bancada ruralista recusaria espaço numa comissão destinada a discutir a reforma agrária.
Jamais também um banqueiro recusaria espaço equivalente para discutir questões de seu interesse. Tanto para um quanto para o outro, é indiferente saber se gosta ou não do governo. O que importa é ocupar espaços estratégicos para a defesa de seus interesses.
Por que isso também não é verdade para os que estão em condições mais desfavoráveis na escala social? Aparentemente, porque, para algumas lideranças, a solução dos problemas de seus liderados significa a perda de poder pessoal. É por aí.

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