Há uma certa forçação de barra em se querer debitar o recente assassinato do índio pataxó em Brasília à conta dos delitos nacionais contra as comunidades indígenas. O crime foi hediondo e merece toda a repugnância possível, mas, como já ficou esclarecido no depoimento dos criminosos, nem se sabia que a vítima era um índio.
O crime não foi étnico: foi social, o que, óbvio, não o torna menos hediondo. Os agressores supunham estar queimando um mendigo - e achavam isso normal. Mais lógico avaliar o acontecido por esse prisma, que evidencia a existência de, mais que um apartheid, um quadro de secessão social.
Que o País, historicamente, está em débito com as comunidades indígenas, não há dúvida. Não tanto quanto os Estados Unidos, claro, que já as extinguiram, mas, de qualquer forma, em débito. Daí, porém, a se deduzir que o crime teve esse objetivo, como sugeriu o respeitável sertanista Orlando Villas Boas, vai uma distância.
Ele diz que o simples fato de um pataxó estar em Brasília reivindicando direitos já é demonstrativo da condição deplorável do índio brasileiro. Bem, esse é um modo de ver as coisas. Há outros. O fato de um índio brasileiro já dispor de condições de vir a Brasília reivindicar direitos evidencia que algo evoluiu. O mesmo se dá em relação aos sem-terra. A marcha da semana passada do MST foi um marco na história das lutas sociais no País.
Sem que um só tiro fosse disparado e sem que uma única agressão se consumasse, o MST percorreu a capital do País, teve seus pleitos difundidos pela mídia de todo o mundo e foi recebido pelos titulares dos três Poderes da República. Os pataxós estavam em Brasília também a serviço de reivindicações coletivas - a demarcação de terras. O Brasil possui vasto contencioso em relação a seus índios, mas é inegável que se consolida junto à opinião pública mentalidade favorável à causa daquelas comunidades.
A própria reação de indignação em relação ao crime demonstra isso. O fato de a vítima ter sido um pataxó - os anfitriões de Cabral, há 500 anos - teve inegável peso emblemático, que ampliou a repercussão da tragédia. O crime é social e é fruto de uma mentalidade nefasta que se expressa em detalhes quase imperceptíveis do dia-a-dia. A idéia de que pobre não é gente (e mendigo, que é o pobre em estado terminal, muito menos) se faz presente no desleixo com que os gestores do processo de globalização lidam com a ‘‘fatalidade’’ do desemprego e do cortejo de ‘‘inempregáveis’’ que são produzidos por suas políticas.
Há, para o sistema financeiro, o Proer, um pronto-socorro que os auxilia a suportar as agruras do ajuste econômico. Mas, para os ‘‘inempregáveis’’, da periferia, apenas frases de lamento. Os neros de Brasília apenas reproduziram, em relação ao indigitado pataxó (que supunham um mendigo), de maneira menos sofisticada, pontos de vista que não inventaram. Apenas captaram - e com precisão - na ideologia da classe dominante a que pertencem.

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