Brasília - Ruy Fabiano
Dividir para reinar, velha máxima do raposismo político, consagrada por Napoleão, está sendo aplicada, sem maiores sutilezas, à causa da desestabilização do Mercosul. A construção de um bloco econômico autônomo ao sul do Equador não interessa aos Estados Unidos.
Não se trata de preconceito terceiromundista. Quem o diz são as autoridades norte-americanas. A secretária de Estado Madeleine Albright, inquirida pelo Congresso, foi de uma franqueza espantosa. Disse: O Mercosul é nocivo aos interesses dos Estados Unidos.
Para que não houvesse dúvidas, acrescentou, didática: Um dos objetivos maiores de nosso governo é assegurar os interresses econômicos dos Estados Unidos onde quer que estejam presentes, em todo o planeta.
Dentro desse fundamento, os Estados Unidos conceberam a Área de Livre Comércio das Américas (Alca) como alternativa apenas para eles, Estados Unidos, não para nós. Bloco econômico - e o modelo que inspirou a todos é o da União Européia - pressupõe área de livre trânsito entre seus habitantes.
Na Europa unida é assim: um cidadão português que decide morar na França não enfrenta barreiras alfandegárias. Mune-se de seu passaporte europeu, adquire o bilhete da passagem e transfere-se, sem problemas. Isso viabiliza a padronização salarial, redistribui renda e une efetivamente o bloco econômico.
A Alca está longe de seguir esse modelo. Pressupõe um bloco econômico desigual, em que o livre trânsito só é permitido a alguns - os mais ricos -, enquanto aos pobres (nós) destina-se o papel de reserva de mercado. O Mercosul, na ótica dos estrategistas norte-americanos, já avançou demais. Há dias, o secretário de Indústria e Comércio daquele país, numa reunião internacional em Singapura, cobrou maior rapidez na abertura econômica brasileira.
Disse que não tínhamos o direito de parar para respirar. Interessantíssimo - e não é tudo. Voltemos agora à frase inicial: dividir para reinar. Eis que os Estados Unidos convidam dois vizinhos brasileiros - Chile e Argentina - para integrar a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan). O Chile como participante, a Argentina como aliada preferencial. Isso significa o acesso desses países a armamentos estratégicos, tecnologias bélicas de ponta, apoio operacional etc. Armam-se os vizinhos brasileiros, ressuscitam-se velhas rusgas idiotas do passado e cria-se o caldo de cultura ideal para melar a unidade do bloco econômico. Sutileza de búfalo da Ilha do Marajó.
Espera-se que a diplomacia do continente tenha superado o estágio paleozóico e saiba lidar com a infantaria mental do governo norte-americano. Esse é um desafio que exige unidade política interna para ter alguma chance de êxito no front externo.





