Brasília - Ruy Fabiano
Como todo movimento social de envergadura, o dos Sem-Terra provoca náuseas no establishment e sofre o assédio compulsivo de partidos políticos e lideranças de todos os naipes - as autênticas e as de proveta. O próprio líder formal do MST, José Rainha Junior, tem seu vínculo partidário e pretensões eleitorais futuras.
É ligado ao PT, pelo qual chegou a ensaiar uma candidatura a vereador, não consumada em decorrência dos contratempos jurídicos gerados por sua militância. Teve pedidos de prisão decretados, o que o obrigou a manter-se diversas vezes na clandestinidade.
Essa promiscuidade partidária é o calcanhar-de-aquiles do MST, para o qual o governo direciona suas setas. Procura, burramente, descredenciar o Movimento, como se esse tivesse a dimensão e a densidade dos eventuais oportunistas que a ele se ligaram. O MST, como foi possível vislumbrar na marcha sobre Brasília, é bem mais que isso: estabelece novo paradigma para a questão fundiária brasileira.
Não é pouco. Com todas as suas limitações - e mesmo com todos os oportunistas que o cercam -, é a primeira vez, na história do País, em que o homem do campo consegue pressionar diretamente a opinião pública, de forma organizada e eficaz. Desde as capitanias hereditárias, trabalhador rural e mão-de-obra escrava são conceitos indissociáveis.
A abolição da escravidão mudou a nomenclatura, mas não a realidade objetiva da vida rural. Basta ler Os Sertões, de Euclides da Cunha, que retrata a conjuntura pós-Lei Áurea, mostrando a condição servil do homem do campo. A abolição da escravatura nos Estados Unidos foi seguida de amplas reformas no campo, que propiciaram prosperidade econômica e algum equilíbrio social.
No Brasil, a abolição, dissociada de qualquer reforma, sobretudo a agrária, foi apenas uma usina de desemprego - rural e urbano. Desde então, estabeleceu-se o êxodo rural, que se agravou progressivamente a partir da segunda metade deste século, ocasionando o inchaço das grandes cidades e a criminalidade urbana desenfreada.
Nos anos pré-64, organizaram-se as Ligas Camponesas, que pretendiam dar voz e vez aos camponeses. Sua liderança máxima era o deputado Francisco Julião. O contexto, no entanto, era altamente ideologizado e foi tratado como tal: como mais um capítulo das lutas periféricas da Guerra Fria. O golpe militar liquidou com as Ligas, e o meio rural, na sequência, voltou a exibir a paz dos cemitérios.
O MST é um novo momento dessa história. Está longe de ser um movimento espontâneo do campo. É óbvio que há, entre seus formuladores, organizações influentes - PT e Igreja Católica, por exemplo. Mas esse trabalho, que não começou agora, produziu lideranças autênticas que, embora aceitem o apoio dessas instituições, não querem ser tuteladas. O comportamento do governo pode determinar o futuro do Movimento. Desprezando-o, acaba por empurrá-lo para os braços dos radicais. Estabelecendo o diálogo, foratalece sua autonomia e independência.





