Brasília - Ruy Fabiano
A passeata de ontem, em Brasília, do Movimento dos Sem-Terra pode inaugurar (ou não) um novo momento no processo de ressurgimento oposicionista. Até aqui, o governo Fernando Henrique reinou soberano, sem encontrar obstáculos mais consistentes a seus objetivos.
As resistências eventuais que enfrentou originaram-se em sua própria base política, em geral motivadas por questões menores, de ordem fisiológica. A oposição, sem discurso, assistia, desmotivada e desarticulada, às perfomances do rolo compressor governista aprovando o que queria, sem lhe conceder o relés beneplácito do debate.
O quadro não mudou muito. O governo continua majoritário e com autonomia numérica no Congresso. A novidade não está sendo produzida pela oposição, embora possa beneficiá-la por tabela. Trata-se de movimentos surgidos dentro da chamada sociedade civil. É de dentro dela que emergem reações mais consistentes contra iniciativas governamentais, como a venda da Companhia Vale do Rio Doce.
A velha aliança OAB-ABI-CNBB, vitoriosa ao final do regime militar, rearticula-se e insurge-se contra as regras da privatização. As lideranças políticas de oposição - Brizola, Lula, Itamar Franco, Miguel Arraes - vão a reboque, em busca de carona. Já não sensibilizam, como no passado recente, a opinião pública. O prestígio advém da presença e liderança daquelas entidades representativas.
O mesmo se dá com relação ao Movimento dos Sem Terra. O PT vincula-se ao movimento, tentando assim extrair dividendos do prestígio que o MST obtém dentro e fora do país, mas o êxito é relativo. Outros partidos e entidades representativas também se aliam aos sem-terra. O PT já não é a vitrine do MST. É sua circunstância, como um papagaio-de-pirata sofisticado.
Esse alheamento da oposição não é casual. Ela está sem diagnóstico da conjuntura, sem proposta alternativa para os problemas. Basta ver as considerações que têm sido feitas por um de seus mais ilustres membros, o ex-governador Leonel Brizola. Há umas duas semanas, ele acusou o presidente da República de responsável maior pelas roubalheiras dos precatórios. Não embasou suas acusações em nada; apenas as formulou, com um ímpeto de liderança estudantil.
Dia desses, propôs que se organizassem manifestações de rua para defenestrar o presidente da República. Anteontem, propôs que as oposições se reunissem e queimassem pneus nas ruas, enchendo o país de uma nuvem negra de protesto. Não há esse clima de fúria no país.
Os problemas, que não são poucos, exigem visão mais inteligente do processo, com críticas menos caricaturais. O MST coloca nas mãos da oposição a temática social, uma bomba de grande poder explosivo, que pode, enfim, colocar o governo na defensiva. Mas é preciso melhorar o discurso, torná-lo menos autista.





