Brasília - Ruy Fabiano
O governo Fernando Henrique cometeu um erro de imprevidência. Não avaliou que a estabilização da economia, iniciada com o Plano Real, colocaria como demanda imediatamente posterior a questão social.
Ela aí está, mostrando seus dentes. O Movimento dos Sem-Terra é apenas a chamada ponta do iceberg. As demandas do setor são muito mais amplas e apenas começam timidamente a ser postas.
Enquanto a economia vivia o caos inflacionário, a urgência maior era de ordem econômico-financeira. Era preciso liminarmente restaurar a moeda a restabelecer alguma lógica no sistema de preços, fulminado pelo Plano Cruzado e outros pacotes alucinados, como o do confisco, no início do governo Collor.
O Plano Real deu um freio de arrumação na economia, mas, como é óbvio, está longe de tê-la resolvido. Estabeleceu, porém, alguma ordem e direcionamento, e tanto bastou para que restaurasse em alguma medida a confiança dos agentes econômicos e da população no governo. A euforia daí resultante elegeu Fernando Henrique já no primeiro turno e deixou a oposição circunstancialmente sem assunto.
Os grandes conflitos políticos enfrentados pelo governo, até aqui, foram de ordem fisiológica, dentro de uma base parlamentar. Eis, porém, que a questão social, que não havia sido chamada para a festa, se apresenta, portando enxadas, foices e sandálias havaianas.
A marcha do Movimento dos Sem-Terra em Brasília, prevista para o próximo dia 19, tem peso emblemático. Mostra que o rearranjo da economia não encerra os problemas do país; apenas os inaugura, sob outra óptica. O mais incômodo, para o governo, é que acaba a idílica circunstância de não possuir oposição. O MST começa a dotar as forças oposicionistas de discurso. O governo Fernando Henrique, que planeja reeleger-se, teme o fim da lua-de-mel com a opinião pública.
O PT, principal força oposicionista, começa a cobrar a criação de um Proer (o pronto-socorro dos bancos) para a área social. O governo defende-se e diz que, em apenas dois anos fez mais pela reforma agrária que seus antecessores reunidos. É verdade, embora não chegue a ser uma vantagem extraordinária, na medida em que os antecessores reunidos fizeram pouco mais que nada. A atitude política do governo diante do MST não tem sido muito diferente daquele enunciado clássico de Washington Luiz, em 1930, segundo o qual a questão social é um caso de polícia.
O governo resistiu (e ainda resiste) a dialogar com as lideranças do MST, sob o argumento de que ferem a lei com invasões a terras produtivas. Somente o diálogo poderá evidenciar esses abusos. Enquanto não ocorrer, a tendência é a mitificação daquelas lideranças e robustecimento do discurso oposicionista.





