O ex-presidente Itamar Franco cultiva, neste momento, comportamento ambíguo. Não nega nem confirma o projeto de uma candidatura ao governo de Minas no próximo ano. E não nega nem confirma o projeto inicial de enfrentar Fernando Henrique na sucessão presidencial.
A ambiguidade não é apenas estratégica. É decorrência de uma indefinição sincera, que só será superada daqui a alguns meses - provavelmente até o final do ano, quando o quadro sucessório estará mais nítido. Até lá, o ex-presidente continuará a avaliar em silêncio suas chances reais. A idéia de uma candidatura a governador só faz sentido se dispuser do apoio do presidente e do marketing do Plano Real.
Esse apoio é viável, embora não propriamente fácil. Fernando Henrique tem compromissos com o atual governador de Minas, Eduardo Azeredo, seu correligionário e candidato à reeleição. A adesão de Itamar, no entanto, é um trunfo que justifica revisões nessa matéria. Itamar conta menos pelo que acrescenta como aliado e mais pelo que poupa em termos de carga crítica. O governo de Minas é a única instância da carreira política que o ex-presidente ainda não ocupou.
A pressão de seus amigos, no entanto, é para que não desista da candidatura presidencial. Há, nesse sentido, até slogans já bolados, do tipo: ‘‘Itamar, o Plano Real sem desemprego’’. Ou: ‘‘Itamar, o Plano Real sem entreguismo’’. E ainda: ‘‘Itamar, o Plano Real com a Vale do Rio Doce’’. Coisas do gênero. O objetivo é caracterizar o ex-presidente como o verdadeiro autor do plano, cuja essência teria sido comprometida pelo ideário neoliberal do atual governo.
O discurso de Itamar, de tom marcadamente nacionalista, pretende apresentá-lo como corretor de rumos, alguém efetivamente preocupado com o social, um contraponto a Fernando Henrique, sem prejuízos para a continuidade do Plano Real. Esse duelo oferece, na avaliação de alguns amigos de Itamar, forte potencial de marketing. E viabiliza alianças à esquerda. Lula não descarta a hipótese de uma coligação oposicionista, capitaneada pelo PT, em torno da candidatura de Itamar Franco. Somente Itamar, tem dito Lula, terá condições de tomar das mãos de Fernando Henrique a bandeira do Plano Real.
A tentação de abraçar a causa é grande, mas Itamar, como bom mineiro (embora nascido baiano), prefere cozinhar a proposta em banho-maria. Seus canais com Fernando Henrique estão abertos. Há pouco mais de uma semana, conversou longamente com o presidente, no Palácio da Alvorada. Foi uma conversa administrada, que versou sobre amenidades e contornou as controvérsias. Tudo na base do garanto que talvez.
Itamar não quer conflitos, por enquanto. Aguarda definições do processo político. Não quer dizer, porém, que deixará de militar nas causas que considera importantes: o combate à privatização da Vale do Rio Doce e a defesa da estabilidade do servidor, por exemplo. Causas mais ou menos perdidas, mas, de qualquer maneira, fundamentais para que marque posição e ocupe espaços junto à opinião pública.

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