A CPI dos Títulos, no Senado, incide no mesmo equívoco de outras anteriores, de combustão política equivalente: cria expectativas que não está em condições de atender. Traduzindo: transmite à opinião pública a idéia de que dispõe de provas capazes de pôr na cadeia numerosos dilapidadores da economia popular - e não disõe.
Também ao final da CPI do PC, supunha-se que os parlamentares dispusessem de provas inapeláveis contra Fernando Collor, capazes de colocá-lo na cadeia. Na ocasião, entre outras pirotecnicas, foi exibido às câmeras de TV um automóvel apinhado de pastas e papéis, trafegando do Senado à Procuradoria Geral da República. Eram, segundo se informava, as provas irrefutáveis contra o ex-presidente. Não eram. Examinados pela Justiça, os documentos, em sua maioria, mostraram-se inconsistentes para sustentar as acusações feitas pela CPI. Havia evidências do envolvimento do ex-presidente com o esquema PC, mas, não havendo o que se chama em advocatês de ‘‘conexão causal’’, sabia-se que não haveria meios de condená-lo no Supremo Tribunal Federal. A punição possível era a política, e se esgotara com o impeachment. Apesar disso, vendeu-se durante todo o tempo à opinião pública a idéia de que o ex-presidente seria preso.
Não tendo sido, a frustração popular projetou-se sobre o STF, que absolvera o ex-presidente. Os ministros defendiam-se: não podiam julgar com base em suspeitas, adjetivações ou subjetividades. Os acusadores descuidaram-se exatamente do quesito provas. Sem ele, nada feito. Com a CPI dos Títulos, o filme se repete.
A tentação do espetáculo interfere no comportamento de alguns, que passaram a jogar mais para a arquibancada que para a equipe. A busca de performance estabelece, de cara, algumas transgressões. Testemunhas são tratadas como réus, sem direito de defesa. CPI não é tribunal; é instância investigativa. Mas, como capricha mais na retórica que na investigação, acaba não sendo, a rigor, nem uma coisa, nem outra.
Quanto a isso, não há como negar razão ao presidente da CPI, senador Bernardo Cabral (PMDB-AM), em sua briga com o relator, Roberto Requião. Cabral condena na atitude de Requião exatamente a expectativa falsa que causa junto ao público, fazendo crer, entre outros, os sequintes equívocos: 1) que a CPI já dispõe de provas irrefutáveis contra alguns dos depoentes, o que não é verdade; 2) que, munido dessas provas (que não possui), poderá dar voz de prisão aos acusados.
Ambos os pressupostos são falsos, o que cria ambiente perigoso para a instituição. A fase de depoimentos está por se encerrar e o relator quer prazo de 90 dias para produzir seu relatório. Nele, bem ao contrário do que sugeriu sua performance na CPI, não colocará ninguém em algemas. Apenas recomendará ao Ministério Público que processe determinados personagens. Mais uma vez, a desinformação geral do público fará supor que tudo terminou em pizza, quando simplesmente nada terminou. Apenas poderá ter início.

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