A conexão PT-Movimento dos Sem-Terra está de volta, a pleno vapor. O partido investe tudo na marcha sobre Brasília, prevista para o próximo dia 17, primeiro aniversário do massacre de camponeses pela Polícia Militar do Pará, em Eldorado dos Carajás.
Até hoje, como se sabe, não houve maiores consequências práticas daquele acontecimento, cuja responsabilidade imediata cabe ao governo do Pará, que comanda (ou pelo menos deveria) a PM local. A responsabilidade maior, contudo, cabe ao governo federal, na medida em que tem o comando da política fundiária - e é ela (ou, por outra, a ausência dela) que está na base daquela e de outras tragédias.
O Movimento dos Sem-Terra é, do ponto de vista político, a pedra no sapato do governo Fernando Henrique. O programa reformista-modernizante do presidente esvaziou o discurso ideológico de seus adversários parlamentares, que não souberam atualizar-se para os desafios e expectativas deste novo momento pós-Guerra Fria.
O relativo êxito do Real, ainda que com fragilidades óbvias e mais que nunca expostas, garantiu base de apoio popular e confiabilidade externa ao presidente, obrigando seus adversários a se tornarem igualmente guardiões do Plano. Tudo estaria perfeito não fosse um fato singelo: o quadro social continua tão dramático quanto antes.
É verdade que o Plano Real aumentou o poder de consumo das classes mais desfavorecidas, mas isso é válido apenas para quem já estava no mercado. Os excluídos - cerca de dois terços da população - continuam do mesmo jeito: sem horizontes. O MST é apenas a ponta do iceberg de algo bem mais extenso e dramático, que exigirá uma variante nacional do New Deal, aplicado na década dos 30 por Roosevelt, nos Estados Unidos, para atenuar os efeitos da recessão econômica.
O governo Fernando Henrique não dispõe de projeto consistente para reverter o quadro de penúria social da maioria da população. Não concebeu nada para atenuar o drama não apenas dos sem-terra como dos sem-teto da área urbana, dos desempregados e subempregados. É esse filão que as forças oposicionistas querem começar a explorar.
A parceria PT-MST já se manifestou anteriormente, muito embora meio de improviso, muito mais à base do entusiasmo - e até da ousadia juvenil da militância - que da sistematização e da estratégia. A idéia agora é agregar, em torno dessa questão, lideranças articuladas e discurso mais ou menos uniforme, cobrando ações concretas do governo para com o bem-estar da população.
O drama social não precisa de muita retórica. Serve-se da contundência dos fatos. Acontecimentos como o massacre de Eldorado dos Carajás trazem em si mesmos a força do apelo e da denúncia. Dia 17, em Brasília, o governador Cristovam Buarque fará entrega da chave da cidade - gesto simbólico reservado a homenagear estadistas e benfeitores públicos. O MST, tratado como delinquente pelo governo federal, começa a ganhar foros de cidadania, em plena capital da República.

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