Brasília - Ruy Fabiano
O deputado Delfim Netto (PPB-SP) ajusta-se sem dificuldades ao epíteto de neobobo recém-cunhado pelo presidente Fernando Henrique. O presidente considerou neobobos os que insistem em acusar o seu governo de neoliberal e de estar favorecendo a atividade financeira.
Vejam o que, a esse respeito, diz o ex-czar da economia brasileira em dois governos militares, num depoimento recente sobre a globalização, que está sendo veiculado em livro pela Fundação Milton Campos, instituto de estudos do PPB (A nova esquerda, a globalização e o desemprego em debate).
O Brasil está sendo colonizado por um pensamento hegemônico que coloca as finanças acima de qualquer coisa. O produtor é um ser detestado. Em Brasília, um sujeito que faz uma arbitragem de papéis é considerado um herói. Um sujeito que fabrica é considerado um chato, porque vem aqui discutir qual o peso do crédito, do câmbio e de outros fatores que interferem na produção.
As observações de Delfim são oportunas, sobretudo quando o presidente Fernando Henrique reúne embaixadores em Brasília para discutir o colapso do comércio exterior, cujo déficit, neste primeiro semestre, aproxima-se de US$ 3 bilhões. Delfim, de quem pode dizer-se tudo menos que não entende do assunto, acusa o governo, com sua política cambial - e não o processo de globalização da economia -, de responsável por esse colapso.
A palavra está com ele:
- O que está inviabilizando a competição das empresas nacionais não é simplesmente a existência de multinacionais poderosas, que têm vantagens extraordinárias. Por que as empresas estrangeiras estão comprando o mercado interno brasileiro? Porque é um grande negócio. Você submete o produtor nacional a algumas condições inteiramente desiguais de competição. O produtor nacional tem um câmbio sobrevalorizado, o que significa uma desvantagem medonha. O produtor nacional tem uma taxa de juros alta - três, quatro vezes maior que a de seu competidor externo. Vender empresas ao estrangeiro não é um mal em si. Mas vendidas por quê? Porque se criaram condições desiguais para os brasileiros em comparação com os estrangeiros. Eles estão vindo para a indústria da exportação? Não. Eles têm vindo para comprar a única coisa que temos de rico, que é o nosso mercado interno.
Tudo isso, segundo Delfim, gerou uma distorção grave: o Brasil já não tem um plano de integração nacional, abandonado em favor de um processo equivocado de globalização. Para ele, o Brasil é, em si, um modelo mundial de globalização:
- O Brasil representa o que pode vir a ser o sonho da União Européia daqui a 25 anos, se eles aceitarem a moeda única, um banco central único em Bruxelas, se os burocratas nacionais cederem seus papéis aos burocratas internacionais. Há 500 anos, o sujeito pode sair do Rio Grande do Sul e produzir cana em Pernambuco. São cinco séculos de livre movimentação de capitais e de pessoas. Quem olhar para o Brasil vai saber o que produz a globalização, quando ela for integral.





