Brasileiros sem querer
Quando turistas brasileiros retornam da Europa é comum o encantamento diante da qualidade de vida da população de alguns destes países que conseguiram conciliar vigor econômico com bem-estar e coesão social. O sonho de muitos brasileiros é o de um dia poder mudar para lá. Mas contraditoriamente ao que é exaltado, o modelo de sociabilidade desses países, em geral, é o resumo de tudo o que o brasileiro médio rejeita e condena em seu próprio país. Proteções sociais universais, como o Bolsa Família, são vistos por aqui como alimento para preguiçosos, enquanto políticas semelhantes foram implantadas na Europa há décadas. A equidade de renda é perseguida com vigor, são privilegiados os espaços públicos, todos frequentam as mesmas escolas, hospitais, shoppings, teatros e cinemas, o que os faz sentirem-se parte de um todo comum, indivisível, que só funciona porque é reconhecido por cada um, como de todos e para todos.
Os impostos são elevados e progressivos, recaindo particularmente sobre a renda (o imposto de renda em alguns países chega a 55%), serviços domésticos são registrados e bem remunerados, os aeroportos e espaços de lazer são dominados pela classe média, a grande maioria da população, homens e mulheres ocupam as mesmas funções e têm a mesma remuneração. A saúde e a educação pública são a regra, a privada, exceção e em muitos lugares raridade. A diferença de rendimentos entre os 20% mais ricos e os 20% mais pobres, fica em torno de 4 vezes (índice de GINI), o que por consequência leva a reduzidos índices de violência. O salário mínimo na Alemanha é de 1.473 euros, um professor do ensino médio ganha cerca de 3.200 euros e um juiz aproximadamente 4 mil euros.
A equidade de rendimentos e a ausência de pobreza são orgulho nacional. Em síntese, a "Europa mágica" da viagem de férias é, em essência, tudo o que o brasileiro médio odeia dentro de casa, como o fim dos privilégios e a democratização das oportunidades, o que daria fim à tão estimada "síndrome da superioridade congênita", epidemia que domina uma boa parte da população e que se caracteriza pela velha cultura hierárquica de dominadores e dominados, elite e povão, casa grande e senzala.
Uma grande parte dos brasileiros não se reconhece como tal, adora exaltar seus sobrenomes de origem italiana ou alemã e usar expressões como: "O meu sangue italiano fala mais alto", como se o nascimento em terras tupiniquins não passasse de um desagradável acidente, pois de fato a genética remonta a povos muito mais desenvolvidos. Com exceção da Copa do Mundo, não se reconhecem como brasileiros, descolam-se da identidade nacional numa ideia de supremacia, isso quando não ostentam passaporte europeu como título de nobreza, conseguido nos arquivos esquecidos dos pobres ancestrais que por necessidade extrema tiveram que emigrar para a "mãe gentil" que a todos acolhe e que agora é motivo de vergonha.
Como bem explorou o antropólogo Darcy Ribeiro, o Brasil nunca existiu para si mesmo, tornamo-nos um gigantesco moinho de gastar gente, enriquecendo um pequeno grupo de privilegiados, e relegamos à mais profunda miséria a imensa maioria da população. Prevalece a ausência de identidade do povo brasileiro, que dentro da miscigenação, se entende como apartado dos demais membros do que seria o seu povo e assim se empenha em criar feudos de supremacia. Darcy Ribeiro não se cansava em dizer que nossa elite é a mais perversa do mundo, algo corroborado pelos indicadores que repetidamente nos colocam nas últimas posições entre os países mais desiguais e qualquer tentativa de mudar este estado de coisas é duramente rechaçada pelos grupos mais privilegiados incapazes de qualquer tipo de concessão.
LUÍS MIGUEL LUZIO DOS SANTOS é doutor em Ciências Sociais e professor da Universidade Estadual de Londrina
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