Na sua obra Raízes do Brasil, escreveu Sérgio Buarque de Holanda: ‘‘Já se disse, numa expressão feliz, que a contribuição brasileira para a civilização será de cordialidade - daremos ao mundo o ‘‘homem cordial’’.
Este ‘‘homem cordial’’ foi forjado no meio familiar, nos isolamentos do Brasil rural, e aos que criticam as ‘‘limitações que os vínculos familiares demasiado estreitos, e não raro opressivos, podem impor à vida ulterior dos indivíduos’’, responde Sérgio Buarque de Holanda: ‘‘Aos que, com razão de seu ponto de vista, condenam os âmbitos familiares excessivamente estreitos e exigentes, isto é, aos que os condenam por circunscreverem demasiado os horizontes da criança dentro da paisagem doméstica, pode ser respondido que, em rigor, só hoje tais ambientes chegam a construir, muitas vezes, verdadeiras escolas de inadaptados e até de psicopatas’’.
O livro foi escrito em 1936, e de lá para cá muita coisa mudou no país e no mundo, tornando o brasileiro nada cordial, entretanto, Sérgio Buarque já explicava o que chamou de ‘‘desequilíbrio social’’: ‘‘No Brasil, onde imperou, desde tempos mais remotos, o tipo primitivo da família patriarcal, o desenvolvimento da urbanização - que não resulta unicamente do crescimento das cidades, mas também do crescimento dos meios de comunicação, atraindo vastas áreas rurais para a esfera da influência das cidades - ia acarretar um desequilíbrio social, cujos efeitos permanecem vivos ainda hoje’’.
Aqui é imperativo mencionar que o desequilíbrio social que agora se aprofunda, e que é mundial, foi acompanhado por uma crise de valores que no Brasil tem suas peculiaridades relativas à nossa cultura, à nossa maneira de ser. Por isso, achei admirável o artigo da jornalista e diretora regional da Folha em Curitiba Regina Kracik Teixeira, ‘‘Casamento, instituição a repensar’’, publicado na Folha de Londrina no dia 18 deste. Aliando um estilo agradável a uma análise equilibrada, Regina discorre sobre a questão da desestruturação familiar, apontando estatisticamente o aumento estarrecedor da quantidade de divórcios e a queda da quantidade de casamentos, entre 1978 e 1996, no Brasil e no Paraná.
Mostrando que o avanço feminino em termos de conquista de mercado de trabalho - que tornou a mulher mais independente do homem e mais propícia a buscar sua realização em outros papéis que não os do casamento - contribuiu para a instabilidade e para decréscimo dos casamentos, a jornalista vai além do fenômeno isolado e afirma: ‘‘Na verdade, o pano de fundo para o decréscimo do número de casamentos e o aumento do número de divórcios é bem mais complexo e revela, antes de tudo, uma generalizada crise de valores de ordem existencial, social e religiosa. O que deve ser colocado em questão, portanto, são os fundamentos do casamento enquanto instituição; uma vez que se esses fundamentos se debilitam, também a instituição é debilitada’’.
Concordando inteiramente com Regina Kracik, gostaria de repetir que os valores no passado forjados basicamente pela família, pela religião e pela educação, foram alterados pelo desenvolvimento urbano, tecnológico, dos meios de transporte e de comunicação que, se por um lado trouxeram inegáveis progressos materiais, por outro desagregaram instituições e valores outrora existentes. Assim, aos poucos, a violência substituiu a cordialidade, a pressa se entronizou no lugar da meticulosidade e da disciplina que levam à excelência no trabalho e na educação, o romantismo foi superado pelo sexismo, o lado espiritual ou do homem foi desbancado pelos mil afazeres da vida moderna, a solidariedade foi solapada pela competição desenfreada e os sentimentos de honra e honestidade naufragaram de vez na esperteza, no vale-tudo, no dá-se um jeito. E, paradoxalmente, a libertação da mulher de certas sujeições que a oprimiam, fizeram com que hoje, mais do que nunca, ela apareça denegrida através daquelas que expõem seus corpos como animais à venda em revistas pornográficas, em certos programas de TV, ou mesmo nas praias e em lugares públicos. Há uma liberação geral, das drogas ao sexo, e o modismo que cultiva desde os antivalores até o abominável ‘‘politicamente correto’’, endeusa bandidos e elege os anti-heróis dos falsos mitos. Toda essa situação engendra os brasileiros nada cordiais de hoje, que matam ou aleijam no trânsito incivilizado, nos campos de futebol, e os inadaptados e psicopatas juvenis, cuja mania mais recente é atear fogo nos menos favorecidos pela sorte ou atacar gratuitamente pessoas, como fizeram brasileiros na Bolívia. Por isso, tem razão a jornalista quando apela para que se repense ‘‘a instituição do matrimônio à luz de uma mudança bem mais abrangente, que é, em última instância, a dos paradigmas que determinam nossa visão de mundo’’. De fato, é preciso que o homem retome seus caminhos, não aqueles de volta a uma era elisabethana de valores hipócritas, mas os caminhos que o tornam intrinsecamente humano, e que o fazem se diferenciar das simples bestas.

mockup