O recente capítulo da novela dantesta ‘‘Violação’’, protagonizada pelos senadores Antonio Carlos Magalhães e José Arruda, com participação especial da ex-diretora do Prodasen Regina Borges, acrescentou pouco à trama criada a partir da violação do painel de votação do Senado. O principal vilão da história, numa interpretação de fazer inveja a qualquer ator ganhador do Oscar, continuou jurando inocência, apresentando argumentos que foram da ficção ao devaneio, como se todos os telespectadores (cidadãos brasileiros, pagadores de impostos e eleitores) fossem desprovidos de capacidade de raciocínio e crítica.
Arruda, desta vez mais calmo, revelou seu dom para a dança. Na frente das câmeras, rebolou muito para tentar desdizer o que já havia dito e para não pagar sozinho o ônus da violação, pois sabe que é o lado mais fraco da corda nesse cabo de guerra.
A coadjuvante, nervosa por interpretar – já em seu primeiro papel – uma personagem tão complexa e vulnerável ao poder, chegou a tropeçar no texto, mas manteve a versão de que a votação secreta de cassação do mandato do ex-senador Luiz Estevão foi violada a pedido dos dois senadores.
Sem uma indicação de como será o final da novela, os telespectadores brasileiros continuam torcendo pelo final feliz: a cassação dos mandatos dos senadores ACM e Arruda e a punição administrativa de Regina Borges (que depois de tanta exposição na mídia pode acabar sendo convidada para ancorar algum programa de TV ou, dependendo da produção, para posar nua em alguma revista masculina).
Os dois senadores sabem que a pressão popular é forte, capaz de provocar uma guinada de 180 graus em suas carreiras políticas. Até mesmo ACM, uma das eminências pardas de maior influência na história recente do Brasil, adorado e idolatrado em seu Estado de origem, está com medo de perder seus direitos políticos, pois reconhece a gravidade dos fatos.
Por isso, os dois senadores articulam uma ‘‘saída pela esquerda’’, mudando o final da história, renunciando a seus mandatos e garantindo sobrevivência política em seus currais eleitorais depois do ‘‘The End’’.
O Brasil não vai aceitar esse final para a novela, pois já aprendeu a escrever sua própria história. Apesar dos sinais de relutância já demonstrados pelo relator do processo, senador Saturnino Braga, que neste fim de semana poderá entregar seu parecer para votação no Conselho de Ética do Senado, os figurantes dessa novela (nós, brasileiros) sabemos para onde caminhar. Como somos muitos e estamos unidos, temos força para empurrar essa corja para onde queremos: o fundo do poço.
Sabemos que o espírito de corpo (ou seria de porco?) pode falar mais alto e que ACM pode ser poupado pelos colegas. Ao que tudo indica, quem irá para o sacrifício será o senador Arruda e a própria Regina.
Mas aqui vai um recado público para o senador ACM e para os membros do Conselho de Ética do Senado Federal: sem medidas enérgicas, a instituição Senado perderá definitivamente o crédito junto à população.
A lei é para todos! A população brasileira não aguenta mais cumprir todos os seus deveres e ter os seus direitos violados por aqueles que julgam estar acima da lei. Isso vale para ACM, para Arruda e para Jader Barbalho, que conseguiu sair da berlinda, mas ainda deve explicações à sociedade sobre as graves denúncias que pesam sobre seus ombros.
Luiz Estevão e Fernando Collor de Mello foram apenas os primeiros. Ainda temos que varrer muita sujeira para fora da política brasileira e fechar as portas das futuras eleições para outros políticos da mesma formação ética e moral.
- CLÁUDIO SLAVIERO é Empresário, vice-presidente e coordenador do Conselho Político da Associação Comercial do Paraná em Curitiba

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