Brasileirada & ditadura purgativa
Brasileirada & ditadura purgativa
Joel Samways Neto
Ditadura é uma ameaça constante sob o espaço aéreo da América Latina. Construção histórica, cultural, a mentalidade dos latino-americanos não tem deixado de manter um amplo território de concessão, simpatia, expectativa por governantes fortes. Não se trata nem de governos fortes, mas de governantes, pessoas físicas e tanto melhor se forem daquelas que dão murros em mesas e, aos berros, declaram que vão pôr ordem no cortiço.
A essa predisposição da mentalidade latino-americana acrescente-se a seguinte pergunta: quando foi que a América Latina esteve totalmente livre de ditadores? Quando pensamos que estamos vendo o crepúsculo dos regimes autoritários na velhice dos caudilhos por exemplo, Fidel Castro, na ativa, e Augusto Pinochet, aposentado somos surpreendidos por representantes de gerações mais novas dando continuidade aos regimes políticos de força, autoritários. Alberto Fujimori, no Peru, e Hugo Chávez, na Venezuela, provam que ainda há amparo aos ditadores, no estrato e no substrato da cultura dos nossos vizinhos (Carlos Menem, da Argentina, também não deixa de ser autoritário, embora suave, quando esboçou pressão para moldar a Constituição daquele país, à sua imagem e semelhança, pretendendo concorrer à reeleição para mais um mandato, o terceiro consecutivo).
A oportunidade de tocar no assunto da nossa mentalidade ditatorial aparece, ou melhor, fortalece-se, na esteira dos acontecimentos da semana passada, no Brasil. E por obra e graça da decisão do Supremo Tribunal Federal (STF), que considerou inconstitucional a cobrança de contribuição previdenciária dos servidores aposentados e pensionistas da União, e ainda contribuição adicional dos servidores da ativa. Foi uma decisão ilegal? Não, fundamentou-se na interpretação literal (gramatical, filológica), a mais rasa da hermenêutica jurídica. Mas a principal pergunta é se essa interpretação foi a mais acertada, se não seria o caso de, como costuma acontecer no STF, os ministros lançarem mão de outros instrumentos interpretativos, o lógico, o histórico, o sistemático, o tópico, entre outros, para construir a significação melhor da norma constitucional, que fosse mais razoável diante da premente realidade nacional.
Essa reflexão é necessária à medida que os números estão contra o Brasil, demonstrando que o rombo na Previdência é o principal fator do déficit público causa primeira do emperramento da prosperidade brasileira. Mais do que isso, os números estão demonstrando uma gritante desigualdade entre os compatriotas. Na comparação entre os trabalhadores, fica evidente o tratamento desigual, pois enquanto os da iniciativa privada, que compõem a brasileirada, ao se aposentarem, receberão no máximo R$ 1.255, os servidores públicos inativos receberão como se ativos fossem, e com direito a todos os aumentos que a estes forem concedidos.
É importante notar que a crítica não se dirige contra a boa aposentadoria, ou se o servidor público seria, ou não, merecedor desses proventos. A crítica é para indagar se o País vai aguentar manter, por exemplo, 906 mil aposentados, que consomem R$ 24,9 bilhões, sendo que os servidores federais só recolhem R$ 2,8 bilhões! Não é fácil perceber, aritmeticamente, a desproporção? A diferença, de R$ 22,1 bi, fica por conta dos cofres públicos, para os quais todos os brasileiros contribuem. Mais fácil ainda é perceber a desproporção do salário do ministro do STF, que mostrou seu contra-cheque, de R$ 10.800,00, e o do trabalhador da iniciativa privada. Repito: a questão não é saber se isso é pouco ou muito para se pagar a um ministro do STF, mas de o País aguenta. É preciso saber se o brasileiro comum aguenta ver esse ministro declarar que, mantido o desconto previdenciário, ele teria que devolver seu automóvel zero.
É claro que o ideal seria aumentar os ganhos dos aposentados da iniciativa privada. Porém, como fazer isso sem que os que ganham muito passem a ganhar um pouco menos? Afinal, existe um limite de decência, seja para o salário mínimo, seja para o salário máximo. E se esse limite não for criado, inventado, descoberto, a tendência é de que a pressão popular aumente. Aumente até que apareça um político autoritário que, usando uma linguagem ratinha, saiba explicar essas diferenças ao povão, à brasileirada de segunda classe, e prometa um purgante contra privilégios de classe.
Tanto no Peru quanto na Venezuela, os magistrados receberam um chute no traseiro. A democracia saiu perdendo, e o povão não achou nada ruim.
- JOEL SAMWAYS NETO é escritor e procurador do Estado em Curitiba





