Brasil: um país rico ou um país pobre?
"É preciso refletir com honestidade: para cada grande escândalo que vem à tona, quantos outros não permanecem ocultos?"
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sábado, 27 de dezembro de 2025
"É preciso refletir com honestidade: para cada grande escândalo que vem à tona, quantos outros não permanecem ocultos?"
Ary Sudan 
A resposta para essa pergunta depende do ângulo pelo qual olhamos o Brasil, da lente que escolhemos para interpretar a nossa realidade. Se observarmos as estatísticas oficiais, a renda per capita, o IDH da maioria das cidades, as longas filas para cirurgias eletivas, a precariedade da estrutura escolar, a quantidade de pessoas dependentes de auxílios sociais, as palafitas, os esgotos a céu aberto e os altos índices de violência, a conclusão parece óbvia: o Brasil é um país pobre.
No entanto, basta trocar a lente para que a realidade se transforme completamente. Quando passamos a observar os escândalos quase quinzenais de corrupção, os desvios bilionários em estatais, os salários milionários de alguns servidores públicos — muitos deles já aposentados —, valores que fariam corar qualquer cidadão de bem, surge uma contradição gritante. Soma-se a isso a estrutura pesada e cara dos governos, que entregam resultados pífios e um atendimento público frequentemente humilhante para o cidadão. Ao analisar os gastos absurdos, os desperdícios inaceitáveis e a ineficiência generalizada, somos levados a outra conclusão: o Brasil é, sim, um país rico. Só um país muito rico conseguiria suportar tanto abuso, tanta roubalheira, tanto desperdício — e ainda permanecer de pé.
É preciso refletir com honestidade: para cada grande escândalo que vem à tona, quantos outros não permanecem ocultos? Temos conhecimento apenas dos casos mais rumorosos, enquanto inúmeros desvios menores — mas nem por isso menos graves — passam despercebidos, abafados pela dimensão dos maiores. O Brasil possui 26 estados e um distrito federal, cerca de 5.500 municípios e uma complexa estrutura federativa. Imagine a quantidade de irregularidades que podem ocorrer nesses espaços, muitas das quais jamais chegam ao conhecimento da população ou sequer são investigadas.
Essa realidade pode ser facilmente comparada à de um grande condomínio — afinal, no fundo, somos todos condôminos deste país. Imagine um condomínio em que a administração desvia recursos, parte dos funcionários trabalha “meia-boca” ou apenas finge trabalhar, e as contas não são fiscalizadas como deveriam. O resultado é previsível: todos os moradores pagam uma taxa condominial absurda e recebem, em troca, serviços de péssima qualidade. É exatamente isso que acontece com o Brasil.
Quando olhamos para exemplos internacionais, como Noruega, Finlândia, Dinamarca, Suécia, Japão e tantos outros países, percebemos que a diferença não está na ausência de recursos naturais — muitas vezes eles têm menos do que nós —, mas na decência coletiva. Em algumas dessas nações, o cidadão que usurpa o dinheiro público enfrenta tamanha vergonha social que, em casos extremos, chega a tirar a própria vida. Não por medo, mas pela consciência do ato indigno cometido contra o seu povo.
Se o Brasil não fosse constantemente perfurado por rombos causados por roubos, desvios, desperdícios e, sim, por incompetência — porque não há corrupção sem gestores incompetentes ou moralmente falidos —, teríamos condições plenas de oferecer saúde de excelência, escolas bem estruturadas e com ensino de alta qualidade, estradas seguras e eficientes, saneamento básico universal e segurança pública de primeiro mundo. Não apenas poderíamos ser um país desenvolvido: nós já seríamos.
Isso é impossível? Absolutamente não. O que falta não é dinheiro, é decência. Falta compromisso com o bem comum. Falta um povo mais consciente, que não normalize o “jeitinho”, que não relativize a corrupção, que não troque princípios por favores. E, sobretudo, faltam líderes decentes, éticos, preparados e verdadeiramente comprometidos com a nação — líderes que mereçam a confiança do povo e que governem com responsabilidade, transparência e respeito.
O futuro do Brasil não depende de milagres, mas de escolhas. Escolhas morais, coletivas e individuais. Depende de formarmos um povo mais íntegro e exigirmos, sem concessões, líderes à altura da grandeza do país que temos — e do país que podemos ser.
Ary Sudan – Leitor da Folha
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