Brasil, teu nome é música
Rafael Greca
Traço marcante da cultura brasileira é, sem dúvida, a música. Com 8 milhões de km2 de área, a maior insolação do planeta e a maior variedade de pássaros sobre a Terra, o Brasil vibra de energia musical. Contribuem para isso as tradições culturais de 206 povos indígenas ainda preservados no nosso território, as etnias africanas (transplantadas para cá no doloroso processo de escravidão, mas hoje perfeitamente integradas à nossa sociedade) e a variedade cultural das 174 imigrações européias, asiáticas e americanas que sucederam aos portugueses.
‘‘Índias Ocidentais’’, sonho dourado dos navegadores dos séculos 16 e 17, empório colonial disputado pelas tropas de Portugal, Espanha, Holanda e França, eldorado gerador da arte barroca mais linda do mundo, o Brasil - sonhador, emboaba, quilombo, inconfidente, independente, Império, República - foi acumulando harmonias. Logo, contar a nossa história em música é ótima idéia.
Foi por isso que, tendo recebido visita cordial de Chitãozinho, meu conterrâneo do Paraná, no gabinete em Brasília, em fevereiro passado, pedi-lhe uma música para os 500 anos do Brasil. Pedi outras para diversos maestros e compositores. Todos são bem-vindos.
Alguém fez confusão ao chamar a música do Chitãozinho de ‘‘hino dos 500 anos’’. Veio adorável polêmica. Desnecessária. Sua extraordinária criação cultural certamente colocará a bela canção sertaneja entre as mais cantadas neste e no próximo ano.
Mas é importante dizer: o governo, por meio dos membros do Comitê Executivo do Quinto Centenário (aí incluídos o ministro da Cultura, Francisco Weffort, o ministro das Relações Exteriores, Luiz Felipe Lampreia, o secretário de Comunicação da Presidência, Andrea Matarazzo, e eu), recebe com grande alegria a criação generosa de Chitãozinho e Xororó. Isso mesmo: ninguém cobrou ou pagou nada pela música. Logo, ela não pode ser tida como hino ou canção oficial. Aliás, nós preferimos para a festa, que apenas começa, a espontaneidade como medida.
Na reportagem veiculada pelo programa ‘‘Fantástico’’, da Rede Globo, em 11 de julho, Tom Zé, Alceu Valença e Gabriel, o Pensador, opinaram sobre a questão. Tom Zé amaldiçoou a canção porque ela começa evocando uma arena de rodeio; ele se recordou do partido que apoiava o regime militar e tinha essa sigla. Acho que Chitão, pela sua juventude, nem se lembrou disso. Seus parceiros tampouco.
Gabriel, o Pensador, disse que, se ele fizer uma música, um rap, nós não vamos aceitar. Foi preconceituoso com os integrantes do comitê executivo e com milhões de brasileiros que estimamos tanto. Será que não foi preconceituoso consigo mesmo? Alceu Valença, de bem com a vida, vivendo nas colinas de Olinda - onde é difícil proceder diferentemente -, cantarolou o Hino Nacional em diversos ritmos, do samba ao maracatu. Genial. Aliás, dia desses, quando a Fiat lançou seu projeto cultural dos 500 anos, em Brasília, o Olodum descascou tambores com o Hino Nacional. Foi lindo. Até Marco Maciel, nosso cordial e zeloso vice-presidente, apreciou; dona Ruth Cardoso e o ministro da Educação, Paulo Renato, nem se fala.
Parece-me que o veio preciso - e precioso - está aí: provocamos a reflexão e a criatividade nacionais para o ano 500 do Brasil, ano 2000 da civilização dita cristã. Que venham todos os sambas-enredo que morros e bairros populares possam compor. Frevos e maracatus capazes de erguer com leveza os grandes mamulengos ondulantes dos desfiles de Olinda, Recife e todo o Nordeste. Que fervam os terreiros de samba baianos com atabaques, afoxés, maculelês e abadás, doce memória das lutas ancestrais pelas quais os africanos ajudaram a formar a civilização que floresceu a partir de Porto Seguro e Salvador.
Será muito bonito se os poetas maiores da Bahia, Gil e Caetano, Gal e Bethânia, Daniela, Armandinho, Carlinhos Brown e tantos outros revogarem o título de única da música de Chitão. Em Curitiba, o maestro Waltel Branco, parceiro de Tom Jobim e Vinicius de Moraes, glória mulata da nossa MPB, já nos brindou com mais uma composição sobre os 500 anos. O mesmo fizeram Antônio Carlos e Jocafi. Venham ainda rasqueadas cuiabanas, tocadas em viola de caixa; toadas de boi da ilha de Santa Catarina ou de São Luís do Maranhão, e dali ao Pará e à mágica Parintins amazônica.
E por que não fandangos e chulas gauchescas, sapateados nos salões assoalhados pelo pinho do Sul ou nos incríveis ‘‘salões de mola’’, que ainda existem no interior do Paraná, para que todos, mesmo os mais ‘‘polacos’’, os mais ‘‘alemães’’, ginguem ao som das violas? Urge que a celebração chegue às sociedades novas de Roraima, do Amapá, de Rondônia e do Acre. E também às enluaradas serenatas das cidades históricas de Minas Gerais e Goiás.
São João, Santo Antônio e São Pedro, nos animados arraiais que iluminam o sertão brasileiro, hão de pedir para o ano letras e temas de forró evocativos da fundação do Brasil.
Isso tudo não exclui um erudito simpósio nacional que vai compor a ‘‘Sinfonia do Quinto Centenário’’, já em elaboração no Ministério da Cultura, com aplausos entusiasmados da nossa comissão de festejos. Há também no planejamento a edição em massa de CDs, que serão encartados em jornais do Brasil e de Portugal, com a ‘‘Sinfonia de Vasco da Gama’’, de Bizet, e o ‘‘Descobrimento do Brasil’’, de Heitor Villa-Lobos.
E que venham ainda o rap paulistano, o rock urbano, o hip hop juvenil, o funk suburbano das grandes cidades, o assovio dos bem-humorados e da passarada. Afinal, pátria amada, teu nome é música, doce Brasil!
RAFAEL GRECA DE MACEDO é ministro do Esporte e Turismo, presidente do Comitê Executivo das Comemorações do Quinto Centenário do Descobrimento

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