Brasil ou Argentina, falso dilema - Miguel Ignatios
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 05 de setembro de 1997
Miguel Ignatios 
A diplomacia brasileira ficou acordada recentemente ao saber que o presidente Carlos Menem, da Argentina, se opunha à candidatura do Brasil como representante da América Latina no Conselho de Segurança ampliado da Organização das Nações Unidas (ONU). A notícia teve o efeito de uma bomba no Palácio do Planalto.
Alguns analistas notaram na atitude de Menem óbvias intenções eleitoreiras, já que ele vai disputar nas urnas mais um mandato presidencial. De acordo com tais comentaristas, o presidente Argentino estaria, para usar o jargão esportivo, jogando para a torcida, no caso, o eleitorado. Com certeza, isso deve ter pesado na decisão de tornar público o veto à candidatura brasileira. Mas só isso não o faria criar um clima de mal-estar com o Brasil.
John Foster Duller, ex-secretário de Estado americano, dizia sempre que um país não tem amizades, mas interesses. E é claro que tais interesses, no caso de Brasil e Argentina, nem sempre são convergentes.
Há também alguns comentaristas que viram por trás da atitude de Menem uma manobra argentina para apressar, como pretende o governo americano, a adesão de Mercosul ao Nafta, o que, obviamente, vai contra os interesses do governo brasileiro. Essa aliança implícita e não declarada entre Argentina e Estados Unidos seria, na visão de tais analistas, a retribuição ao apoio americano para a inclusão dos argentinos na OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico).
Na verdade, o namoro diplomático entre Buenos Aires e Washington começou há mais tempo durante a Guerra do Golfo a Argentina foi o único país sul-americano a enviar um contingente de soldados para o Iraque. Essa gentileza feita por Menem não foi esquecida pelos americanos.
Aliás, é bom que se diga, a diplomacia argentina, desde o primeiro mandato de Menem, tem atuado com bastante desenvoltura em Washington, nas capitais européias na América Latina, no Japão e até mesmo no Sudoeste asiático. Há três ou quatro meses, Menem fez uma visita oficial de surpresa à Indonésia. Por coincidência, logo depois que um dos ganhadores do Nobel da Paz, Ramos Horta esteve no Brasil pedindo o apoio de FHC à luta pela independência de Timor Leste, anexada em 1972 pelos indonésios.
Mas, afinal, deve estar se perguntando o leitor, qual é o objetivo de Menem? Nada mais, nada menos do que aumentar o peso geopolítico do seu país no contexto latino-americano. Obviamente, se ele dissesse sim à candidatura brasileira, estaria, ao contrário do que quer, ampliando - e muito o peso geopolítico do Brasil.
Daí fazer sentido, a posição defendida por Menem de ao invés de simplesmente apoiar o Brasil ser favorável a um rodízio entre representantes latino-americanos no Conselho de Segurança da ONU.
O ideal para o Brasil, a Argentina e também para o grupo de nações em desenvolvimento seria que a América Latina tivesse direito a dois assentos no Conselho de Segurança ficando o organismo composto por: quatro europeus (França, Inglaterra, Rússia e Alemanha), três americanos (Estados Unidos, Brasil e Argentina e México se revezando), três asiáticos (China, Índia e Japão) e dois africanos (África do Sul e outro representante indicado em sistema de rodízio).
De qualquer forma, a questão de Brasil ou Argentina representarem os latino-americanos, no caso de abrir-se apenas uma vaga, não é tão importante quanto parece. A consolidação do Mercosul, agora com a perspectiva de adesão dos países do Pacto Andino, e o reconhecimento do valor geopolítico e estratégico que a região voltou a ter, após a derrocada das nações do Leste Europeu, são objetivos para ambos - Brasil e Argentina - muito mais importantes.
O resto virá depois.


