Brasil, onde o real é maior que o possível

Rafael Greca de Macedo
Normalmente somos tentados a nos humilhar quando pensamos no Brasil: terra sem esperança, com narcotráfico vitorioso e sem possibilidade de punição, criminalidade, violência, meninos de rua, favelas sem horizonte, gente se prostituindo, corrupção por toda parte. No entanto, a reflexão sobre nossa história, própria deste tempo de celebração nacional dos nossos 500 anos, não pode prescindir da lúcida energia do nosso patriarca José Bonifácio de Andrada e Silva quando disse que ‘‘O Brasil é o País onde o real é maior do que o possível’’.
Não se pode negar problemas comuns a países contemporâneos, mas é preciso pensar naquilo que somos. No que conquistamos, com toda a dor da história que passou, mas também com as alegrias de nossos sucessos.
Há que descobrirmos a nossa grandeza. O desafio é compreendermos as nossas dimensões múltiplas. A natureza em convívio com a civilização. Natureza? São verde preservado 48% do território. Civilização? Somos 5.500 cidades. Cidades? Muitas, inclusive São Paulo, a maior cidade industrial do mundo. Brasília, capital adulta e formosa com apenas 40 anos. Palmas, no Tocantins, capital já com 10 anos de idade, pronta para o progresso. No Paraná, além de Londrina e Maringá, outras 200 cidades do café, com 50 anos apenas, e totalmente bem acabadas.
‘‘Somos feitos da mesma matéria dos sonhos’’. Somos a terra das oportunidades. Nossos avós imigrantes têm filhos em posições de comando da maior democracia do mundo.
O Brasil é sonho realizado se comparado com o país de 1900. Em 1900, éramos 17 milhões de brasileiros, 1.000 cidades e vilas, 85% da população no campo, a grande maioria analfabeta e sem saúde. Em 2000, somos 160 milhões de brasileiros, 5.500 cidades, rumo à Internet, só 20% da população vive no campo. Jeca Tatu e Macunaíma, nossos símbolos daqueles tempos passados, convivem com os mitos globalizados e bem sucedidos de Fitippaldi, Guga e Ayrton Senna.
O turismo é uma nova estratégia de desenvolvimento nacional. Gera empregos e renda inventados da história e da paisagem. São 8,5 milhões de quilômetros quadrados com sol. Sessenta mil quilômetros de rios navegáveis esperando barcaças, iates, hotéis flutuantes, empreendedores audazes e criativos.
Comemorar é conhecer. Quinhentos anos de Nação Brasileira significam mais do que o quinto centenário da viagem de Cabral e os seus argonautas. A festa começa em Portugal, mas a glória é de todos os brasileiros, índios, negros, imigrantes, tolerantes com os que lhes são diferentes.
Vamos celebrar aquilo que somos. O que fizemos. A paz étnica aqui existente entre gente tão diferente na origem e tão fraterna no convívio nacional. Enquanto a Europa vem de fazer a triste guerra do Kosovo para expressar intolerância com minorias, gastando US$ 17 bilhões em bombas no ano passado, o Brasil pode ser orgulhar do seu mosaico étnico.
O Brasil, ensina Jorge Caldeira, já é globalizado por dentro. O barroco mais lindo do mundo está aqui. Exatamente porque tem criatividade não só lusitana, como indígena e africana.
Vamos celebrar nossa honrada herança. Duzentos e vinte e seis nações indígenas. Cento e setenta e oito imigrações. Pelo menos 40 etnias africanas. O encontro com a nossa alma cabocla e feliz, nas cores e formas de nossos artistas. Volpi, Aleijadinho, Di Cavalcanti, Sergio Ferro, Manoel da Costa Ataíde, ou Portinari, o Candinho dos cafezais lavrados por ‘‘oriundi’’.
Vamos recordar o Brasil que vive nas letras de Machado de Assis, Euclides da Cunha, José de Alencar, Pero Vaz de Caminha, Guimarães Rosa, Jorge Amado, Érico Veríssimo. Vamos ouvir o Brasil na voz do tempo e do vento, nas palavras de Thiago de Mello, Glauber Rocha, Fernanda Montenegro, Ariano Suassuna, Ferreira Gullar. Brasil também na memória musical de Cartola, Pixinguinha, Caymi, Brasílio Itiberê, Villa-Lobos, Tom Jobim, Noel Rosa, Herivelto Martins, Luiz Gonzaga.
Brasil que é pura música quando sonhamos com a possibilidade de um mergulho em Fernando de Noronha. Quando sentimos a doce brisa dos mares do Nordeste, quando vemos o sol nascendo e se pondo em Brasília, sinfonia de matizes de alaranjado até verde água no horizonte amplo. Brasil que é pura melodia quando se namora nos parques de Curitiba, quando se ‘‘birita’’ com cachaça mineira nas ladeiras das cidades barrocas. Brasil musical que vai atrás do trio elétrico, viaja com frio pelos pampas e pinhais do Sul, tempera feijão com farinha de mandioca ou come carne seca com manteiga de garrafa.
Brasil dos frutos incomparáveis. Pinhão assado na brasa da lareira no começo do inverno. Caju caído do pé, que faz babar de ato doce. Pequi que tempera o arroz nas fartas gamelas de Vila Boa de Goiás. Cupuaçu que adoça a vida quando se está em companhia das belas cunhaporangas da Amazônia.
Brasil que nos leva a tomar banho de água de cheiro nas escadarias do Bonfim, a segurar a corda na caudalosa procissão do Círio de Nazaré, em Belém do Pará, a chimarrear ao pé do fogo enquanto sopra o vento do Sul, que os gaúchos chamam minuano. Brasil dos rios de cristal, cintilando ao sol das chapadas, em Minas, Bahia e Goiás.
Não sabemos desde onde é o céu, até quando é a água nos horizontes planíssimos do Pantanal e das Anavilhanas dos rios amazônicos. Podemos nos perder pelo Brasil. Por exemplo, entre as casas do Ianomâmis, em Roraima, lá onde cascatas de mais de 2 mil metros despencam do Pico da Neblina. Mas sempre acharemos o rumo de casa. Está escrito nas estrelas, pelo sinal do Cruzeiro do Sul.
Vamos, pela festa que está apenas começando, abraçar o Brasil com a generosa força do Cristo Corcovado, com a forte energia das Cataratas do Iguaçu, aquelas que jorram, finalizando o rio que nasce onde eu nasci.
- RAFAEL GRECA DE MACEDO é ministro do Esporte e Turismo e presidente do Comitê Brasil 500 anos

mockup