Brasil: identidade e alienação cultural
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segunda-feira, 02 de dezembro de 2002
Valmor Bolan 
Parece inacreditável, mas a cidade mineira de Ouro Preto pode perder o título dado pela UNESCO de patrimônio da humanidade. Isso por causa do descaso para com a sua riqueza artística, visível na deterioração de muitos de seus edifícios e monumentos históricos. Segundo o editorial de O Estado de São Paulo (16/11/2002), ''a decisão evidencia a incapacidade do município, Estado e União na preservação desse conjunto arquitetônico e urbanístico, considerado fundamental para o estudo sobre a colonização portuguesa na América, assim como representa um golpe contra a reputação do País, que deixa de cumprir um compromisso internacional como guardião desse patrimônio.'' O editorial também destaca que ''faltam investimentos regulares na conservação dos prédios e agrava-se o adensamento urbano irregular.''
Ouro Preto não é a única cidade que corre o risco de perder o importante título dado pela UNESCO. Paraty também. Isso tudo demonstra que o Brasil não parece estar levando muito a sério a honraria em otimizar tais títulos em favor de seus munícipes. Em Ouro Preto, por exemplo, ficamos indignados diante da falta de visão de futuro e até de sensibilidade do poder público local, que chega a dizer que o turismo não é a principal receita do município, tentando justificar assim o desinteresse da Prefeitura em preservar o tão importante título dado pela UNESCO em 1980. Ainda conforme ressalta o Estadão: ''Cidades como essas têm a chance única de se tornar centros de excelência, não só em turismo, como também na formação de profissionais para restauro, insuficientes num mercado atualmente em crescimento. Perder o título conferido pela UNESCO a Ouro Preto é pior do que nunca tê-lo conquistado''.
A experiência de recuperação do centro antigo de São Paulo é um exemplo de como iniciativas da sociedade civil legitimamente organizada pode funcionar, de forma positiva, no processo de conscientização, mobilização e realização de ações que permitam ampliar o leque de possibilidades no sentido de otimizar os potenciais sociais e culturais locais.
Na realidade, a única forma de preservar Ouro Preto desse vexame internacional é o fortalecimento da sociedade civil, fomentando a integração de instituições (públicas e privadas), em parceria com o terceiro setor (isto é, as OnGs), para a promoção de ações que efetivamente visem a um turismo sustentável.
VALMOR BOLAN é Doutor em Sociologia, diretor geral da Faculdade Editora Nacional (FAENAC)


