Brasil em viés de baixa
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 15 de julho de 2002
Carlos Roberto Bizarro e Sidnei Bizarro 
Depois das perdas nos fundos DI e renda fixa provocadas pela volatilidade do mercado da tal da ''marcação a mercado'' que continuam a tirar o sossego dos investidores, ficam as perguntas: Será que com a decisão do Copom de viés de baixa, os fundos podem reaver a confiança do investidor e baixar os juros? Não necessariamente. Um viés de baixa implica na visão que o Banco Central aguarda alguma sinalização mais forte de melhora do cenário, o que pode não vir a ocorrer. Quem investiu em fundos tem direito a IR de volta? Por que nossos impostos também não passam a ser ''marcados a mercado''?
As perdas podem ser abatidas do IR? A Receita Federal admite a compensação, ou seja, o investidor que constatou perdas tem direito, sim, a um crédito tributário para pagar menos IR quando voltar a ganhar. A tal compensação poderá ser feita no fundo de investimento onde houve o prejuízo, entretanto, vale ressaltar que nem todos os bancos contam com a compensação automática para reconhecer as perdas e dar ao cliente o crédito tributário devido. Neste caso, o cotista deve exigir do gestor do fundo uma declaração confirmando a perda, para que possa fazer a compensação na declaração anual de rendimentos.
O cenário econômico tende a se acomodar e é preciso acreditar que o governo não vai dar calote. Em 1997, com a crise asiática, o governo dobrou as taxas de juro afetando os fundos. Mas, conforme os juros caíram, quem investiu recuperou as perdas, fato que se repetiu em 1998, na crise da Rússia, e, em 1999, após a desvalorização cambial. A história é cíclica e a esperança também.
Dia após dia, o contribuinte brasileiro vem se sentindo lesado e inseguro ante à situação econômica, que passa por uma crise das mais graves dos últimos tempos, levando à necessidade de recorrer aos cofres do Fundo Monetário Internacional (FMI) para abocanhar US$ 10 bilhões para aumentar o superávit fiscal e dar um aperto de liquidez. O medo de uma ''argentinização'' aumenta junto com o risco Brasil, tendo chegado ao nível mais alto desde janeiro de 1999, dias antes da desvalorização do real, quando atingiu 1.779 pontos, preocupando os investidores. Mas, o cenário internacional está também muito conturbado e afetando o risco de todos os países emergentes. O risco México, por exemplo, aumentou 40% nos últimos dois meses.
Mas a situação do Brasil hoje é bem diferente da vivida pela Argentina nos últimos anos, principalmente no regime cambial, cuja manutenção do câmbio fixo por tempo excessivo, levou a Argentina à crise atual. A política brasileira flexibilizou o câmbio há dois anos, tornando o País mais imune a crises externas. Nossa dívida externa também é proporcionalmente menor do que na Argentina, embora nos oito anos do governo Fernando Henrique Cardoso tenha passado de US$ 148 bilhões para US$ 240 bilhões e a dívida interna pulou de R$ 62 bilhões para R$ 678 bilhões, enquanto que a carga tributária passou de 25% para quase 36% do PIB.
Em 94, eram 47 milhões de brasileiros que viviam abaixo da linha de pobreza, atualmente são 54 milhões. Nosso PIB decresceu de US$ 807 milhões, em 97, para US$ 519 milhões, em 2001, e a nossa taxa de juros é a segunda mais alta do mundo, só perdendo para a Polônia. O Brasil era a oitava economia do mundo e a maior da América Latina. Hoje somos a 11 economia do mundo e perdemos a liderança da América Latina para o México.
Mas, mesmo assim, os especialistas afastam qualquer analogia com a crise Argentina sob a alegação de que o Brasil tem um sistema fiscal em funcionamento, permitindo que o governo cumpra sua meta de superávit primário do setor público para 2002 de 3,75% do PIB, além das metas inflacionárias razoáveis e de um sistema cambial flutuante, que opera como amortecedor do cenário econômico brasileiro.
Mas, o cenário externo também é preocupante, e os escândalos que envolvem grandes corporações americanas refletem nos investimentos no mundo todo, inclusive aqui.
O melhor é enxugar a economia e implantar a tão almejada reforma tributária para evitar o já prognosticado ''colapso da economia do Brasil'', movido a especulações eleitorais.
Mas, a conquista do pentacampeonato pela seleção brasileira de futebol, agregou um novo sabor de patriotismo e otimismo ao País, que se pintou de verde-amarelo. Essa conquista certamente ajudou a levantar o moral do povo, que ainda espera, com dignidade, um novo milagre brasileiro - agora na economia e na redução do desemprego.
CARLOS ROBERTO BIZARRO E SIDNEI BIZARRO SÃO sócios-diretores da Bizarro & Associados - Desenvolvimento Empresarial


