É inegável o ganho de visibilidade externa do Brasil devido ao crescimento econômico da última década. A batalha do setor do turismo é para desvincular a imagem do País apenas do Carnaval e da praias. E os resultados já começaram a aparecer. Dados da Embratur revelam um crescimento de 35% no número de visitantes estrangeiros de 2009 para 2010. O salto foi de 3,7 milhões para 5,1 milhões.
O turismo interno também está aquecido, graças à ascensão da classe C. Levantamento da Organização Mundial do Turismo (OMT) aponta que até 2014 mais 27,9 milhões de brasileiros devem integrar essa nova classe média, que hoje já possui 114,9 milhões. Realmente, é um mercado em franco crescimento com potencial a ser explorado.
Mas, se os números são otimistas, a responsabilidade aumenta. Nunca se falou tanto em falta de infraestrutura aeroportuária e necessidade de investimentos. Cenário que, segundo especialistas, pode começar a mudar devido ao grande destaque que o Brasil ganhou por ter sido escolhido para sediar a Copa do Mundo de 2014 e a Olimpíada de 2016. Prospecções da Embratur já indicam uma atração de R$ 4,7 bilhões em investimentos nos próximos anos.
As necessidades e potencialidades do setor foram exaustivamente debatidos recentemente na 9 edição do Fórum Panrotas, evento realizado anualmente em São Paulo para discutir o mercado do turismo brasileiro. De acordo com Márcio Favilla, diretor-executivo da Organização Mundial do Turismo (OMT), defende que é necessário ampliar a oferta de produtos turísticos no Brasil. ''Esta medida é válida tanto para melhorar o turismo interno quanto o internacional'', aponta.
De que forma eventos como a Copa do Mundo e a Olimpíada podem benefiar o País?
Os grandes eventos são mobilizadores para atacar problemas que poderiam ser resolvidos apenas no futuro ou nunca serem atacados. Assim, os investimentos são antecipados, porque os eventos têm datas para acontecer. Tudo precisa estar pronto para a ocasião. Ao mesmo tempo, internamente, estamos vendo um crescimento do turismo brasileiro, o que cria possibilidades de investimentos e de entrada de novos agentes econômicos no setor, como empresas e investidores de outras áreas vendo no turismo um negócio em que vale estar presente.
Qual o desafio hoje do Brasil frente ao turismo internacional?
Temos vários. Alguns são superáveis, outros não. Não podemos imaginar que o Brasil vai ter números de atração de turistas internacionais como alguns países europeus, até porque existe uma questão geográfica que é instransponível. Mas temos o potencial de receber muito mais turistas estrangeiros, seja a negócio, lazer ou qualquer outro motivo de visita. Para isso acontecer, entretanto, temos que melhorar nosso receptivo, que inclui a infraestrutura dos aeroportos. E, quando falamos de aerportos, estamos falando de um conjunto dos serviços que estão dentro dos aeroportos, que não se resume a instalações, pistas, terminais, mas inclui todo o recurso necessário para os embarques e desembarques que envolvem áreas do governo como Polícia Federal e Alfândega.
Temos ainda, do ponto de vista do setor privado do turismo, a necessidade de desenvolver ou até mesmo criar produtos turísticos que sejam atrativos, ampliando a oferta de opções de visitas, de passeios e de locais de compra, por exemplo, mas de maneira organizada.
Muito se discutiu durante o Fórum sobre estratégias para alavancar o setor. O que senhor destaca como fundamental para atingir esse objetivo e para o que os profissionais do turismo ainda não se atentaram?
Os empresários e governos de todo o País já se atentaram para todos os problemas que existem. Um deles que se repete, porém, é a questão (da falta) de recursos humanos qualificados. E não estamos somente falando em pessoas que possam vir a trabalhar como funcionários, mas qualificar nossos empresários. Qualificar ainda pessoas com vocação empresarial e oferecer a elas informações para que possam empreender. Nosso setor, diferente da maioria, tem oportunidades de empreendedorismo fantásticas: empresas podem começar pequenas e chegar a ser grandes, emprega um grande percentual de mulheres, dá chance aos jovens como porta de entrada no mercado de trabalho. Além de todas as oportunidades de trabalho, oferece oportunidades de carreira profissional.
Quais são, atualmente, as principais falhas e potencialidades do turismo brasileiro a serem trabalhadas? E regionalmente?
O Brasil tem uma imagem cada vez melhor internacionalmente e isso é fundamental para trazer visitantes, seja a lazer ou negócios. Precisamos, portanto, de maior oferta de produtos turísticos e melhorar nossa infraestutura. É importante lembrar que isto é válido tanto para melhorar o turismo interno quanto o internacional. O Brasil é um país que tem possibilidade de um turismo interno pujante e isso pode servir de base para que o turismo internacional seja pujante também. Temos, no lado positivo, uma oferta imensa de recursos naturais e culturais que podem ser trabalhados para que se tornem produtos, ou seja, precisamos usar nossos atributos para transformá-los em produtos.
Um assunto que ganhou notoriedade foi a ascensão da classe C como clientes do turismo. Realmente é um mercado promissor?
É um mercado extremamente promissor e que tem a tendência de continuar a crescer nos próximos anos. O Brasil tem uma população grande e aproximadamente 30 milhões que vivem e trabalham em locais diferentes de onde nasceram. Somente aí, já temos um potencial imenso. Com o crescimento da renda, ainda que não seja substancial, o brasileiro, naturalmente, vai querer e ter necessidade de ver o novo. E o turismo proporciona isso.
Qual o trabalho desenvolvido pelo senhor na OMT para colocar o Brasil em destaque como destino?
Eu sou um brasileiro na OMT, não um representante do Brasil na OMT. Então, meu trabalho é de âmbito global. Mas à medida em que vejo que existem situações que para o Brasil possam ser benéficas, informo ao Ministério do Turismo ou tento mostrar ao setor privado o que há e quais são as posibilidades e oportunidades. Concretamente, posso dizer que nesse período de 15 meses que estou lá tenho buscado trazer conhecimento e aporte ao desenvolvimento do turismo brasileiro por intermédio do MTur e também do setor privado na área de gestão de crise e risco, de formação e capacitação, na áreas de sustentabilidade ambiental e no desenvolvimento de novos produtos turísticos.

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