Brasil em chamas - Rubem Azevedo Lima
Brasil em chamas
Rubem Azevedo LimaSó aos oito meses de seu segundo mandato presidencial, Fernando Henrique Cardoso anunciou um plano para criar empregos, tentar desenvolver o País e atender às demandas dos excluídos sociais. O Brasil estava semi-estagnado e a previsão de crescimento para o ano corrente era negativa. À falta de acontecimentos concretos para comemorar, as autoridades festejavam o infestejável: o PIB do País, apesar dos problemas brasileiros, teria ultrapassado a barreira dos RS$ 900 bilhões. Mas, considerada a cotação atual da moeda brasileira, em relação ao dólar, verifica-se não haver nenhum motivo para comemoração.
O novo plano, que substitui o Brasil em Ação, teve elogios dos aliados do governo e críticas da oposição. Uns e outros, no entanto, em conversas reservadas, demonstravam ceticismo quanto à hipótese de o governo obter os meios que lhe permitam implementar o que FHC chamou de Plano Plurianual de Investimentos.
Segundo o governo, serão investidos recursos públicos e privados na execução dos programas do plano. Políticos mais experimentados, porém, consideram estranha, na identificação resumida da iniciativa de FHC sua sigla oficial a exclusão de uma palavra básica: investimentos. Preferiu-se, a isso, valorizar o aspecto temporal da proposta sua plurianualidade a ponto de se dividir, na acrossemia, esse vocábulo em duas palavras: Pluri (P) e Anual (A).
Ninguém sabia explicar os motivos da adoção do acrograma PPA, em lugar de PPI. Evidentemente, não se procurava nenhuma sigla que resistisse ao mau humor de um povo decepcionado com o governo. Se houvesse tal preocupação, não se trocaria PPI por PPA, logo transformada em Promete, Promete e Adia. Temia-se, isto sim, que tal escolha revelasse um novo ato falho do governo, sabedor das dificuldades em conseguir os recursos públicos e privados, para os investimentos indispensáveis ao êxito do plano.
Seria natural que FHC, ao divulgar o novo plano, mostrasse aos brasileiros o que fez e o que deixou de fazer no Plano Brasil em Ação (PBA), de seu primeiro mandato, explicando, sem subterfúgios, por que aconteceram uma coisa e outra.
Ao editar o PPI (ou PPA, como quer o presidente), sem prestar esses esclarecimentos, com toda a franqueza, no oitavo mês de seu segundo mandato, FHC dá aos brasileiros a impressão de que desistiu, em definitivo, de fazer tudo o que prometera, para eleger-se em 1994, mas não conseguiu realizar, e pode, pois, fazer o mesmo em relação às promessas de 1998 ou às constantes de seu novo e ambicioso plano.
Talvez tenha sido esse o motivo pelo qual, divulgado o PPA (PPI), vários governadores vieram às pressas a Brasília, em clima de fim de festa os governistas Roseana Sarney (Maranhão), Albano Franco (Sergipe) e Esperidião Amin (Santa Catarina) e o oposicionista Anthony Garotinho (Rio) atrás de ajuda federal para seus Estados. O governador do Rio ameaçou, se não fosse atendido, pedir moratória para seus compromissos junto à União. Prometeram dar-lhe o que pedia. O governador Itamar Franco, de Minas, fez pedido igual e nos mesmos termos, mas no começo da festa. Até hoje está em desgraça junto ao governo federal.
O Brasil não estava, então, às voltas com milhares de focos de incêndio propriamente ditos, em seu território, e outros grandes incêndios, no sentido figurado, muito piores.
- RUBEM AZEVEDO LIMA é jornalista em Brasília





