Uma das diferenças culturais mais importantes entre as Américas ibérica e anglófona - e que talvez explique ao menos em parte os graus de desenvolvimento alcançado em cada uma dessas regiões - é a reação das lideranças políticas diante de obstáculos aparentemente intransponíveis. Enquanto latino-americanos tendem a ampliar suas divergências para enfrentar crises e problemas emergentes, a tendência de nossos irmãos do Hemisfério Norte (americanos e canadenses) é a de encará-los como desafios a ser superados.
Um exemplo histórico do início do século ilustra bem tais comportamentos. Em 1904, o governo dos Estados Unidos convenceu-se das vantagens econômicas e estratégicas de ligar o Mar do Caribe ao Oceano Pacífico. Apesar de o país já ter amplo acesso aos dois maiores oceanos - o Pacífico pela Costa Oeste e o Atlântico pela Costa Leste - era preciso encontrar um caminho mais curto para escoar as mercadorias de exportação, produzidas nas regiões Nordeste e Sudeste, destinadas aos mercados asiáticos (principalmente Japão, China e Índia). A solução encontrada foi construir o Canal do Panamá.
Terminada a obra gigantesca, veio a pergunta inevitável: quais países ganharam e quais perderam com ela? Em primeiro lugar, dentre os vencedores, os Estados Unidos, que encurtaram bastante o caminho para colocar seus produtos nos mercados do Extremo Oriente. Isso lhes valeria, depois, ao longo do século, a hegemonia estratégica mundial, consolidada definitivamente durante a Segunda Guerra. Em menor escala, lucraram também o Canadá, o México e os países da América Central e do Caribe. A grande perdedora, no entanto, foi a Colômbia: ficou sem parte do seu território, que hoje é o Panamá, e sem a Zona do Canal.
Nem sempre foi assim. Durante os séculos 15 e 16, portugueses e espanhóis reagiram de forma diversa e bem mais criativa ao desafio da época: o controle das rotas terrestres do comércio entre o Oriente e a Europa pelos turcos otomanos. Os primeiros chegaram à Índia via Sul da África e, no caminho, descobriram o Brasil; os segundos descobriram a América, tentando chegar à Índia.
Hoje, todavia, as elites latino-americanas não têm enfrentado os problemas comuns deste final de século com a mesma determinação e criatividade de seus ancestrais.
Recentemente, o embaixador brasileiro no Peru, José Viegas Filho, defendeu a construção de uma estrada pavimentada para ligar o Brasil ao Peru. Ela teria tripla finalidade: facilitar o comércio dos dois países; integrar a Amazônia, que também é compartilhada com outras nações sul-americanas; e, por último, servir de ponte para a entrada da Comunidade Andina no Mercado Comum do Cone Sul (o Mercosul).
Definido o traçado e feitas as simulações de impacto dessa obra sobre o meio ambiente, restaria superar o principal obstáculo à sua concretização: a falta de vontade política dos interessados. Os primeiros passos para superar a inércia e obter um consenso político mínimo entre o Mercosul e a Comunidade Andina já foram dados por ocasião da realização do 1º Fórum Empresarial Brasil-Peru, em agosto no ano passado.
A consolidação desse evento ocorrerá em Lima, nos dias 13 e 14, com a presença dos presidentes Fernando Henrique Cardoso e Alberto Fujimori, para a realização do 2º Fórum Empresarial Brasil-Peru. Essa é a decisiva contribuição da iniciativa privada para o desenvolvimento da América Latina.

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