Brasil é campeão de cesareanas
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sábado, 21 de junho de 2003
Agência Estado 
São Paulo - Apesar de uma gestação normal durar até 42 semanas incompletas, médicos se apressam em marcar a cesárea para a 38ª. É o começo da frustração das mulheres que querem ter parto normal. O fenômeno é brasileiro e já virou rotina na rede privada de saúde. A explicação, jamais dita por médicos, é uma só: a comodidade de não serem surpreendidos por um parto na madrugada ou no fim de semana.
A história é sempre a mesma. Durante o pré-natal, o médico se resume a dizer sobre o parto normal: Vamos tentar. Outros dão pistas mais enfáticas de que não estão dispostos a encarar o procedimento, ao afirmar que a cesárea é a melhor opção. Raros, mas existem, são os que desde o começo dizem não fazer parto normal.
Foi o caso da web designer Chrystiane Campos, de 26 anos. Assim que ela disse para o médico que queria fazer parto normal, ele respondeu: Não faço, porque não dá tempo de eu chegar ao hospital. Como sugestão, ele ofereceu transferir Chrystiane no último mês de gravidez para um colega que fazia. Mas em toda consulta ele tentava me dissuadir da idéia do parto normal.
No quinto mês de gestação, Chrystiane trocou de médico. Para sua surpresa, esbarrou no mesmo problema. Percebi que seria cesárea de qualquer jeito. Ela só conseguiu ter seu bebê de parto normal porque deixou de lado a rede privada de saúde e buscou atendimento na Casa de Parto do Itaim Paulista, unidade do Sistema Único de Saúde (SUS), da capital paulista.
Uma semana depois de começar a ser atendida na Casa de Parto, Chrystiane começou a ter contrações. Lara, de 5 meses, nasceu de parto normal, com 3,65 quilos. De tão boa que foi a experiência, já penso no segundo filho. As mulheres têm de correr atrás de informações sobre parto.
Desculpas - É a falta de informação que deixa a mulher vulnerável às decisões do médico sobre como será o parto. Cordão enrolado no pescoço, bebê muito grande ou muito pequeno e até falta de dilatação antes mesmo de o trabalho de parto começar são alguns argumentos que os médicos usam para justificar uma cesariana.
Toda mulher saudável, sem gravidez de risco, é candidata ao parto normal. A cesárea tem indicações precisas. Só deve ser usada no que os médicos chamam de situação de risco, quando a vida da mãe ou do bebê está ameaçada.
Para se ter idéia da freqüência com que uma situação de risco ocorre, a Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda que no máximo 15% dos partos sejam cesarianas. Nos hospitais privados brasileiros, variam de 70% a 95%. O Brasil é campeão em taxa de cesárea, alerta Jorge Kuhn, professor do Departamento de Obstetrícia da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Estamos contra o recomendável.


