Brasil e Argentina perdem
Valter Luiz Orsi
Os governos do Brasil e da Argentina estão conseguindo transferir para o Mercosul a rivalidade visceral que acompanha a história esportiva dos dois países. Com a diferença, fundamental, de que a torcida começa a perceber que a cada lance é ela que acaba perdendo.
Os grandes protagonistas do bloco do Cone Sul se transformaram em dois contendores aguerridos, com ataques e contra-ataques em um jogo do qual pouquíssimos conhecem ou conseguem entender as regras. Afinal, como começou esse estranho campeonato no qual se um perde o outro também, se um revida o outro devolve e ninguém sabe quem está ganhando ou, o que é pior, o que é estar ganhando.
No meio dessa esgrima diplomática, uma parcela da torcida está pagando a conta de ter acreditado nos preceitos do Mercosul e nos discursos das autoridades dos seus dois grandes integrantes. Um número muito grande de empresas passou a atuar no comércio bilateral e hoje enfrenta as fronteiras fechadas. Ou melhor, as porteiras, já que Brasil e Argentina parecem ter assumido uma postura predatória e divisionista, contrariando todas as tendências e ‘‘ondas’’ vividas pelo mundo.
Não que o Mercosul não exija ajustes ou revisão, mas estamos vendo as regras do bloco serem transformadas em pó, que se dissipa e se perde na travessia do Rio Paraná, a grande fronteira molhada no bloco. Se as regras mudaram, qual jogo devem as empresas jogar agora? Pergunta estranha, impasse esquisito...
Algo no mínimo inconsequente está ocorrendo do lado de cá e do lado de lá do Rio da Prata. E os coadjuvantes somos todos nós, empresários e consumidores. Com a agravante de que a crise está sendo muito pouco – ou nada – discutida por todos. Onde está, exatamente, a origem dos desacertos nos rumos do Mercosul.
O óbvio seriam os problemas que a desvalorização do Real no começo do ano provocaram na economia argentina. Com um terço de suas exportações destinadas ao Brasil, a Argentina viu-se em pânico com a valorização do dólar – que tem paridade com peso argentino – e a consequente perda de competitividade dos produtos do vizinho país.
Ocorre que esse cenário era tão previsível quanto a própria desvalorização do real. Ou seja, que ninguém diga que houve surpresas e as variáveis não poderiam ter sido analisadas e tratadas com a devida antecedência. A diplomacia e os ministérios das áreas econômicas devem explicações às empresas brasileiras e argentinas – bem como para os cidadãos – do porquê desses desencontros.
O bloco que nasceu e vinha se firmando como a nova fronteira econômica e instância de poder na América está hoje reduzida a uma rinha. Temos dois galos se engalfinhando diante do mundo que se organiza em regiões comuns até pouco tampo atrás impensáveis. Como nas rinhas, o que não morre sai muito ferido, quando não os dois acabam mutilados.
A defesa de um outro setor mais afetado pelas mudanças no câmbio, conforme argumentam os apoiadores da contenda – embora eles aparentemente sejam poucos – faz sentido. Mas, em momento algum, pode sustentar a derrocada do Mercosul. Está faltando responsabilidade para os dois governos, como faltou respeito àqueles que tiraram o tratado do planos das propostas e dos acordos para transformá-lo em realidade.
Mais uma dúvida que merece ser colocada: a quem, afinal, interessa esse quebra-quebra de louças na cozinha do bloco? Com o perdão da carona na retórica supostamente das esquerdas, só haveria um vencedor se essa luta tola for mantida: o conglomerado de interesses comerciais e estratégicos dos Estados Unidos. De resto, nem Brasil nem Argentina podem esperar vantagem ao verem suas forças, antes unidas, agora serem gastas na troca de agressões. Em breve, serão dois lutadores cansados e dependentes.
Se há algo que o Mercosul tem é futuro. No presente, ainda resta muito o que fazer, já que uma consciência latina jamais foi defendida ou construída como se ensaia começar agora. Esta é a pior hora para regredir porque, no trauma, jamais se tem a iniciativa de retomar o mesmo caminho.
Se os governos brasileiro e argentino o fizerem, pagaremos todos – nossos filhos e netos – o preço do equívoco pela submissão e pela falta tola da união.
- VALTER LUIZ ORSI é presidente da Associação Comercial e Industrial de Londrina (Acil)

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